Newsletter #8 - A Alegria do Ódio aos Judeus | Por Todd Pittinsky | Revista Tablet Mag
- Academia Judaica - Comunicação

- 3 de ago.
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Publicado em 29 de maio de 2026
Por que os antissemitas sempre se divertem muito.
E como os judeus ainda melhoram a experiência deles.

O antissemitismo tem uma marca histórica peculiar: as pessoas que participam dele frequentemente parecem estar se divertindo muito. As multidões são alegres. A retórica é teatral. Há canções, piadas, slogans, referências codificadas e a inconfundível atmosfera de pessoas se divertindo. Mesmo os surtos mais repugnantes costumam surgir envoltos em festividade. Dos espetáculos religiosos medievais aos comícios nazistas e campi universitários após 7 de outubro, o antissemitismo ofereceu a seus adeptos repetidas doses de algo muito mais psicologicamente gratificante do que o mero ódio. O antissemita até pode se descrever como estando profundamente raivoso. Mas normalmente ele está se divertindo muito.
A maioria dos ódios exige muito esforço emocional. Historicamente, o antissemitismo ofereceu uma experiência muito melhor. Ele reúne prazeres: revelação, pertencimento, certeza moral e até entretenimento. Ao longo dos milênios, sociedades muito diferentes experimentaram a mesma combinação inebriante de prazeres.
O primeiro prazer é o da revelação da certeza. Poucas experiências são mais satisfatórias do que a sensação de que o caos do mundo de repente tornou-se inteligível. Crises financeiras, guerras, imigração, mudança cultural, manipulação dos meios de comunicação social – a vida moderna produz resultados que a maioria de nós não compreende de verdade e que ninguém parece controlar. O antissemitismo converte essa complexidade estrutural em narrativa e em história. Há alguém por trás de tudo isso: o judeu.
O antissemitismo sempre se apresentou menos como preconceito do que como insight.
O antissemita não mais se sente confuso ou impotente. Ele se sente iluminado. Ele “ligou os pontinhos”. Desde Martinho Lutero, convencido de que tinha finalmente exposto o embuste do judaísmo até aos conspiradores do século XIX que rastrearam ocultas influências financeira, até aos contemporâneos detetives da Internet que explicam incêndios florestais com diagramas e capturas de telas de Israel e de israelenses, o padrão emocional é familiar. O prazer da revelação é confundido com pensamento.
A indignação judaica faz parte do sistema de recompensas. Faz parte da diversão.
O segundo prazer é o do pertencimento. O antissemitismo sempre foi bom na construção de comunidades. Os libelos de sangue medievais não produziram apenas medo, mas também procissões, rituais e indignação compartilhada. A identidade coletiva é muitas vezes forjada em torno de um inimigo comum. Movimentos nacionalistas posteriores descobriram que o antissemitismo era notavelmente eficiente em transformar pessoas estranhas em camaradas, em cidadãos unidos por uma causa comum. Os movimentos antissemitas sabiam como promover o espetáculo: canções, faixas, marchas, piadas, linguagem codificada, referências singulares faziam parte dos calorosos prazeres da participação.
As culturas unem-se em torno de figuras compartilhadas – heróis, traidores, mártires, forasteiros. O judeu tornou-se uma das figuras mais duráveis e portáteis, servindo como ponto de referência comum. O fato dos judeus ocuparem um lugar tão desproporcional no pensamento e na cultura ocidentais – em livros, peças de teatro, teologia, teoria política e arte – é em si um sinal disso. Um povo que representa uma pequena fatia da humanidade atraiu um volume extraordinário de atenção simbólica. Parte disso reflete uma contribuição genuína, mas a grande parte reflete obsessão. O judeu tornou-se uma figura cultural compartilhada: símbolo, vilão, bode expiatório, enigma. Uma figura em torno da qual as emoções coletivas poderiam facilmente se reunir porque muitas pessoas já conheciam o personagem. As pessoas estavam unidas não apenas pela oposição aos judeus, mas através de histórias compartilhadas sobre eles.
A ideologia antissemita é importante, mas funciona em grande parte como uma história de fachada. O que mais importa é o calor do ambiente.
O terceiro prazer é o moral. O antissemitismo permite que seus adeptos experimentem o ódio como virtude. O antissemita não se sente como um valentão. Sua experiência é de coragem. Ele está expondo um poder oculto. Defendendo a sociedade. A crueldade se torna utilidade pública. Essa estrutura — odiar os judeus como sendo a coisa justa e correta — provou ser infinitamente adaptável. A violência medieval contra os judeus era “defesa da cristandade”. No mundo islâmico medieval, a subjugação judaica sob a lei dos dhimmi era enquadrada como ordem social justa e misericordiosa. Os expurgos soviéticos foram codificados como “virtude anti-cosmopolita”. A propaganda nazista enquadrava a perseguição como higiene nacional. Em grande parte do mundo hoje, o antissemitismo viaja sob a bandeira do antissionismo e da resistência, reformulando o sentimento de expurgo dos judeus como teologia da libertação. O vocabulário muda — anti-colonialismo, anti-globalismo, anti-elitismo — mas a arquitetura emocional é a mesma. O antissemita se sente bem. Ele está fazendo uma denuncia. Ele é um porta-voz da verdade. Um patriota. Um combatente da liberdade.
É notável a estabilidade que a estrutura narrativa mantém. As acusações de libelo de sangue que convulsionaram a Europa medieval — inocentes assassinados, perpetradores monstruosos, a comunidade justa que os expõe — provaram ser duradouras e adaptáveis. Transforme a acusação com a linguagem dos direitos humanos em vez da teologia e a estrutura quase não muda.
Esses prazeres — revelação, pertencimento, certeza moral — não são meramente sentidos. Eles são encenados. O antissemitismo sempre entendeu o poder do espetáculo. Durante os massacres dos cruzados ao longo do Rio Reno, multidões se formavam em procissões religiosas repletas de hinos, bandeiras e emoções coletivas extáticas. Séculos posteriores aperfeiçoariam a forma com a queima de efígies de Judas, desfiles, fantasias e multidões em festa. O antissemitismo sobrevive não apenas como doutrina, mas como entretenimento coletivo. As pessoas acreditavam nele, sim, mas, mais importante que isso, elas o vivenciavam.
A Alemanha nazista compreendeu isso com uma sofisticação aterradora. Algumas das imagens mais perturbadoras da época são perturbadoras justamente porque as pessoas pareciam alegres. Multidões sorriam durante boicotes a lojas judaicas e, posteriormente, em atos de humilhação e degradação públicas. Queimas de livros se assemelhavam a festivais universitários. Desfiles com tochas se tornaram celebrações públicas estridentes. Saques, aglomerações e a observação conjunta das chamas transformaram o ódio em um teatro público do qual pessoas comuns podiam participar.
A cultura digital atual monetizou esses prazeres. As plataformas online são projetadas para maximizar a recompensa emocional.
A cultura digital atual monetizou esses prazeres. As plataformas online são projetadas para maximizar o engajamento, maximizando a recompensa emocional. O antissemitismo se adapta extraordinariamente bem a esses sistemas. As plataformas amplificam a emoção do conhecimento proibido, da linguagem codificada, dos memes e da indignação coletiva, tornando-os instantaneamente acessíveis e infinitamente replicáveis. O linchamento virtual — o ataque coordenado e massificado contra um único alvo judeu — é a turba digitalizada. Assim como as turbas analógicas que as precederam, essas também costumam ser alegres e públicas. Mas, diferentemente das formas anteriores, a participação não exige mais aglomeração nas ruas nem muito esforço físico. A turba não precisa mais se reunir, basta se conectar.
Inundar as redes sociais de jornalistas judeus com piadas sobre a Shoá e memes de fornos crematórios; profanar sinagogas, menorot ou centros comunitários judaicos com suásticas — muitas vezes coincidindo com feriados; filmar insultos antissemitas contra pessoas visivelmente judias e publicá-los online para provocar risadas; transformar ditos antissemitas clássicos em conteúdo viral "irônico" ou vídeos de remixes — nada disso são respostas coerentes a uma suposta conspiração internacional sofisticada que controla a economia, a política, a mídia, a migração e os recônditos do mundo. São rituais de humilhação. O objetivo não é a resistência. O objetivo é o prazer.
Revelação, pertencimento e enquadramento moral explicam grande parte do apelo e da durabilidade do antissemitismo. São prazeres que podem se disfarçar em discernimento, solidariedade e justiça. Cada um tem uma história de fachada. Juntos, eles removem as restrições sociais à crueldade. Uma vez que o ódio parece justo e coletivo, o próprio sofrimento judaico se torna o prazer. O sadismo — o prazer na dor, no medo e na humilhação dos judeus por si só — não tem disfarce. O próprio sofrimento é a recompensa.
Uma das realidades mais difíceis que os judeus enfrentam em relação ao antissemitismo é que sua indignação faz parte da estrutura de recompensa. Faz parte da diversão.
O próprio absurdo faz parte da emoção. As acusações não precisam ser coerentes. Precisam apenas ser enérgicas.
O antissemitismo raramente se contenta em apenas se expressar. Ele busca reação. O choque, a raiva, o medo e a angústia pública que provoca são psicologicamente e socialmente recompensadores para o antissemita. Isso intensifica o drama. Isso ajuda a explicar por que até mesmo acusações extremamente implausíveis persistem apesar de seu absurdo. As acusações não são concebidas para simplesmente persuadir — elas visam escandalizar, provocar e energizar. O próprio absurdo faz parte da emoção. Judeus foram acusados de usar sangue de crianças cristãs para fazer matsá, de controlar o clima, de colher órgãos de crianças palestinas, de treinar e usar cães como instrumentos de agressão sexual, de operar lasers espaciais secretos. As acusações não precisam ser coerentes. Precisam apenas ser enérgicas. Quanto mais absurda a alegação, mais satisfatória a reação que provoca.
Isso cria um dilema peculiar. O antissemitismo não pode ser ignorado. A história pune a indiferença repetidamente. Mas a angústia pública judaica alimenta o próprio sistema de recompensa que a sustenta. A condenação não detém, ela proporciona o prazer que o antissemita deseja.
O antissemitismo não é um fardo que seus adeptos carregam — é um prazer que eles buscam.
Se os judeus protestarem em voz alta, isso será interpretado como se eles tivessem algo a esconder. Se as organizações judaicas exigirem condenação coletiva, isso será interpretado como se os judeus tivessem o poder de suprimir críticas. Se os judeus permanecerem em silêncio, isso será interpretado como indiferença, arrogância ou, pior ainda, concordância tácita. Confrontar a acusação publicamente alimenta o espetáculo. Ignorá-la faz com que a normalização se espalhe. Explique-a cuidadosamente e com nuances e perca terreno mais rapidamente. A complexidade sempre será superada pela simplicidade emocional e pelo vocabulário da cruzada moral. Em resumo, os judeus se tornam atores involuntários no teatro de outra pessoa. O antissemita vence de qualquer maneira.
Isso faz parte da exaustão que as comunidades judaicas experimentam após as ondas antissemitas que se seguiram a 7 de outubro e que não diminuíram. Não é apenas medo. É o reconhecimento desmoralizante de que toda resposta disponível e necessária está comprometida.
O antissemitismo não é um fardo que seus adeptos carregam — é um prazer que eles buscam. As narrativas antissemitas não são a causa do antissemitismo — são suas histórias de cobertura. O espetáculo não é um subproduto do antissemitismo — muitas vezes é o próprio produto. O sadismo não é um efeito colateral — é o que a revelação da certeza, o sentimento de pertencimento e a retidão moral tornam possíveis. A indignação judaica não é um impedimento — é uma recompensa. E tudo isso porque, embora o antissemita frequentemente afirme estar indignado contra os judeus, a história mostra que ele — na maioria das vezes — se sente entusiasmado por eles.
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Todd L. Pittinsky é professor do Departamento de Tecnologia e Sociedade da Universidade de Stony Brook. Seu próximo livro será “Antisemitism Online” (Oxford University Press).




Gostei deste artigo, entendi a dinâmica historica do enraizamento antissemitismo que floresceu desde a idade media especialmente no aspecto religioso, o que acabou gerando através dos seculos um sentimento anti semita, incorporado à cultura ocidental católica, como catalão lembro de minha infância em Barcelona que nos primórdios do pós guerra o Franquismo dizia que os grandes inimigos da Espanha eram o judaísmo o comunismo e a maçonaria, nós dias atuais nem se fala mais nisso e o antissemitismo deixou de ser tema de escárnio.sendo substituído pela repulsa dos islâmicas que edtão invadindo e corroendo a sociedade europeia, este fato com certeza fez a sociedade europeia de forma sutil ver quem são os verdadeiros inimigos da civilização ocidental...