Newsletter #9 - A verdade sobre a captura de Adolf Eichmann | Por Martin Kramer | Revista Mosaic
- Academia Judaica - Comunicação

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Publicado em 01 de junho de 2020
Há sessenta e seis anos, o infame oficial nazista foi sequestrado na Argentina e levado para Israel. O que realmente aconteceu, o que Hollywood inventou e por quê?

Há pouco mais de sessenta anos atrás, na noite de 23 de maio de 1960, o primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion fez um breve, porém dramático anúncio em uma sessão do Knesset convocada às pressas em Jerusalém:
Há pouco tempo, os serviços de segurança israelenses encontraram um dos maiores criminosos de guerra nazistas, Adolf Eichmann, que foi responsável, juntamente com os líderes nazistas, pelo que chamaram de “solução final” da questão judaica, ou seja, o extermínio de seis milhões de judeus da Europa. Eichmann já está preso em Israel e em breve será julgado em Israel.
Na reunião de gabinete imediatamente anterior a este anúncio, os ministros de Ben-Gurion expressaram seu espanto e curiosidade. “Como, de que maneira, onde?”, indagou o ministro dos Transportes, passando a falar em iídiche: “vi makht men dos?” (“Como se faz isso?”) Ben-Gurion desviou a pergunta: “É para isso que temos um serviço de segurança.”
O que o primeiro-ministro deliberadamente omitiu de seu gabinete foi que uma equipe conjunta do Mossad e do Shin Bet, os dois serviços secretos mais importantes de Israel, havia localizado Eichmann em um subúrbio de Buenos Aires, onde ele vivia sob uma identidade falsa. Ele também não revelou que os agentes haviam capturado Eichmann em uma rua escura e o mantido em uma casa segura por nove dias. Ou que a equipe havia colocado Eichmann sedado, disfarçado de comissário de bordo enfermo, em um avião da El Al com destino a Israel.
Nos anos seguintes, as autoridades israelenses trabalharam habilmente para manter os holofotes longe da captura de Eichmann e concentrando-os em seu subsequente julgamento criminal, que durou meses em Jerusalém. De fato, por mais de uma década depois, Israel persistiu em manter o "como" da captura em segredo.
Em contraste, o julgamento aconteceu sob os holofotes das câmeras de televisão. Foi no tribunal que o mundo avaliou Eichmann enquanto ele meditava em seu banco dos réus envidraçado. Milhões de telespectadores puderam avaliar sua reação aos depoimentos de sobreviventes e especialistas, ponderar seu próprio depoimento, ler as reportagens de jornalistas e analistas e formar suas opiniões.
Foram as reportagens sobre o julgamento da filósofa política Hannah Arendt que exerceram a influência mais duradoura sobre a imagem que se tinha de Eichmann. Seus artigos para a revista The New Yorker, reunidos em seu livro “Eichmann em Jerusalém” (1963), delinearam um retrato baseado quase exclusivamente na conduta de Eichmann no tribunal. Concluindo que o acusado demonstrava uma “ausência de pensamento”, Arendt descreveu, de forma memorável, esse Eichmann “assustadoramente normal” como um exemplo do que ela chamou de “a banalidade do mal”.
Hoje, porém, apesar de sua influência duradoura em alguns círculos, a tese de Arendt não define mais a percepção popular de Eichmann. Essa percepção também não se baseia mais em seu julgamento, mas sim no breve período de seu cativeiro inicial: os nove dias, passados acorrentado a uma cama em uma casa segura, entre sua prisão e o translado da Argentina para Israel. É esse Eichmann, retratado em livros populares e, principalmente, em filmes de grande público, que hoje é familiar para a maioria das pessoas. Na verdade, essas produções dramáticas criaram um efeito ainda mais distorcido do que a ideia de Arendt sobre a “banalidade do mal”. Os filmes mostram que durante seu cativeiro Eichmann revelou traços humanos que não demonstrou no tribunal. Este Eichmann seria filosófico, combativo, bem-humorado e até sedutor. Ele não apenas pensa; ele supera seus captores e interrogadores em inteligência. E longe de ser monótono e banal, ele é vívido, magnético e totalmente afável: a própria personificação da afabilidade do mal.
Não é que Hollywood adota a posição relativista de que todas as verdades são iguais. É que a abordagem mais cinematográfica é a mais verdadeira.
É tentador atribuir uma ideia tão extravagante à fantasia criativa de um ou outro diretor. Mas nenhum diretor, lidando com um tema tão sensível, ousaria tecer seu Eichmann a partir de um fio totalmente imaginário. Em vez disso, o Eichmann cinematográfico pode ser rastreado precisamente até uma única fonte aparentemente autorizada: o depoimento de um dos captores israelenses de Eichmann, um autopromotor extravagante chamado Peter "Zvika" Malkin.
Esta é uma história que deve ser contada em partes.
I. Falsos Começos
Logo após o anúncio de Ben-Gurion, o que fascinou os aspirantes a cronistas da captura e do cativeiro de Eichmann foi a audácia de Israel. Como encontraram o notório nazista no meio do nada na Argentina? Como seus captores o prenderam e o mantiveram preso por tanto tempo sem serem descobertos? Como o levaram para o outro lado do mundo? Em resumo: “Como se faz isso?”
A primeira pessoa a reconhecer o potencial cinematográfico da história foi Leon Uris, ainda sob o efeito do sucesso de seu best-seller de 1958, “"Êxodo"”: um relato ficcional da criação de Israel em 1948, posteriormente transformado em um filme de grande sucesso pelo diretor Otto Preminger. Uris tinha um grande admirador no fundador e primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, que, após ler "Êxodo", escreveu para expressar “meus sinceros agradecimentos e parabéns”. Mais tarde, ele concedeu a Uris uma audiência pessoal e lhe enviou um exemplar autografado do livro encadernado em madeira de oliveira.
Assim que a notícia da “perseguição e captura” de Eichmann foi divulgada, propostas para fazer um “filme emocionante” baseado na história começaram a surgir em grande número.
Leon Uris imediatamente enviou um telegrama a Teddy Kollek, então chefe de gabinete de Ben-Gurion (mais tarde, prefeito de Jerusalém), propondo um “filme emocionante” baseado na “perseguição e captura” de Eichmann. O filme seria produzido pela Columbia Studios dentro de um ano, antes que o interesse diminuísse. Para isso, no entanto, Uris precisaria de aprovação oficial, bem como de “material autorizado” obtido dos agentes que realizaram a captura. Ele esperava conseguir tudo isso “em consideração ao meu trabalho anterior em nome de Israel”.
Uris tinha as credenciais certas, mas Kollek hesitou. Israel "consideraria seriamente" a oferta, respondeu ele por telegrama, ressalvando, no entanto, que era "bastante incerto se e quando a história interna poderia ser revelada". Sendo assim, qualquer abordagem, assim como em "Êxodo", teria que ser ficcionalizada.
Kollek nutria uma preocupação ainda maior: que uma abordagem ao estilo hollywoodiano, repleta de mistério e intriga, eclipsasse a história do genocídio nazista. O Estado de Israel, escreveu ele a Uris, precisava de um filme que colocasse a Shoá em primeiro plano: as "atrocidades nazistas" não deveriam ser apenas mencionadas em diálogos passageiros, mas sim "constituir a maior parte do visual do filme". Se isso levasse mais tempo para produzir, que assim fosse. Além disso, Kollek alertou Uris que seria difícil conceder-lhe cooperação exclusiva.
Em resposta, Uris garantiu a Kollek que "impactaria fortemente com cenas visuais da tragédia judaica". Mas seu estúdio precisava de uma “garantia incondicional” de que ele teria “informações exclusivas” sobre a captura, caso contrário, “eu teria que retirar meu interesse”. Era quase um ultimato, mas no final Uris desistiu por outro motivo: o estúdio não queria adiantar nenhum dinheiro e ele não conseguiu encontrar outro para apoiá-lo.
Se o famoso Uris tivesse escrito o roteiro de um filme sobre Eichmann, este teria tido o impacto do filme "Êxodo"? Nunca saberemos, mas a correspondência de Uris com Kollek levantou uma questão que atormentaria todas as tentativas subsequentes de dramatizar a captura de Eichmann: a questão, em resumo, de que não havia como condensar e integrar a imensa história da Shoá em alguns dias de “perseguição e captura” na Argentina.
E esse não era o único problema. Uris queria escrever a “história por trás dos bastidores”, mas a “história por trás dos bastidores” ainda permanecia sigilosa. Kollek revelou que era “uma história de aventura fantástica e bem melhor do que as típicas histórias de policiais e ladrões”. Mas a posição oficial de Israel era, e continuaria sendo, que Eichmann havia sido capturado não por agentes do Estado (como vimos), mas por “voluntários” que o entregaram ao governo israelense.
Isso porque a operação havia ofendido a soberania argentina, e a Argentina levou sua queixa ao Conselho de Segurança da ONU. Seguiu-se um desagradável atrito diplomático, que deixou Israel isolado. Assim, a ficção teve que ser mantida e tornou-se um hábito, mesmo depois que Israel se desculpou com a Argentina. Durante anos, aqueles que planejaram e executaram a operação foram proibidos de mencionar seu envolvimento.
Não que os nove dias de cativeiro de Eichmann tenham sido totalmente apagados. Antecipando o seu julgamento, o governo israelense incentivou a publicação de uma versão altamente censurada. Ben-Gurion confiou a Moshe “Moish” Pearlman, o recém-aposentado chefe do serviço de informação do estado, para escrever um livro rápido sobre a captura. Ben-Gurion examinou minuciosamente o manuscrito finalizado, assim como Isser Harel, então chefe do Mossad e do Shin Bet e mentor da operação.
O livro, que apareceu na véspera do julgamento como “A Captura de Adolf Eichmann” (1961), seguiu a linha oficial. Não houve menção ao governo de Israel, aos seus serviços secretos ou à El Al. Os “voluntários” eram “jovens pioneiros” que criaram “uma aldeia agrícola cooperativa num posto avançado no deserto no sul de Israel” e que de alguma forma depositaram Eichmann nas costas de Israel.
Pearlman queixou-se a Kollek de que a censura tornara o livro “menos interessante” do que poderia ter sido. Isto realmente aconteceu, mas o motivo não foi apenas a censura. Pois Pearlman realmente não tinha quase nada a relatar sobre a conduta do próprio Eichmann no cativeiro. Exceto por alguns breves interrogatórios, escreveu ele, "não houve mais conversas entre Eichmann e seus captores. Ele foi guardado em silêncio. Foi chato... As horas se arrastaram com um langor pesado e lento".
Aqui, então, residia o problema prático de qualquer tentativa de dramatizar a história entre a captura e a fuga. Durante o cativeiro de Eichmann na Argentina, ele permaneceu vendado e algemado à cama enquanto membros da equipe israelense se revezavam para vigiá-lo. Sim, havia tensão no ar devido ao medo de que algo pudesse dar errado. Sim, havia desafios logísticos. Mas os agentes não estavam trabalhando contra um serviço de inteligência adversário, nem atrás das linhas inimigas. Rafi Eitan, um membro da equipe que planejou e executou esta e muitas outras operações de campo, classificaria mais tarde a captura de Eichmann como "uma das operações mais simples que realizei".
Além disso, seus guardas não deveriam falar com ele. Embora Eichmann tenha dito algumas coisas ao agente do Shin Bet cuja tarefa era interrogá-lo (falarei sobre isto mais adiante), os objetivos oficialmente determinados do interrogatório eram bastante limitados: identificar Eichmann sem qualquer dúvida; descobrir como sua família reagiria ao seu desaparecimento; E talvez, se Eichmann soubesse o paradeiro de outros criminosos de guerra nazistas, capturar um deles. (Ele não sabia.) Havia também uma instrução do procurador-geral de Israel: persuadir Eichmann a assinar uma declaração onde ele concordava em ser julgado em Israel. Ele finalmente o fez; a não ser por isso os nove dias transcorreram em tédio.
Tudo isso explica o fracasso do que se tornaria o primeiro tratamento cinematográfico baseado em fatos da captura. Em 1965, Isser Harel, que supervisionou a operação, escreveu um relato dela para uso interno, baseando-se em documentos confidenciais para fazê-lo. Mais tarde, já aposentado, ele tentou publicar seu manuscrito. Após uma árdua batalha legal com o Estado, o livro finalmente foi publicado em 1975 com o título “A Casa na Rua Garibaldi”. (A casa de Eichmann em Buenos Aires ficava em uma rua com esse nome.)
O livro de Harel, dentro de certos limites, confirmou o que todos já presumiam sobre como a operação nasceu, quem a executou e como a própria captura foi coordenada: os aspectos para os quais Harel havia dado sua contribuição crucial. Ele passou pouco tempo na casa segura, no entanto, e quase nenhum com Eichmann. Mesmo assim, os relatos de suas habilidades no Mossad transformaram o livro em um best-seller em muitos idiomas e estabeleceram Harel como o israelense mais responsável pela operação.
Na tentativa de dramatizar o livro, "A Casa na Rua Garibaldi" foi adaptado para um filme televisivo com o mesmo título em 1979, com Martin Balsam no papel principal de Harel. Foi um fracasso. Como a revista People afirmou na época, a captura havia sido de alguma forma transformada em algo “tão emocionante quanto emitir uma multa de estacionamento”. Para o crítico do Washington Post, os cineastas, ao resistirem à “tentação de sensacionalizar o material”, o haviam “reduzido a um estado letárgico”. O crítico do New York Times considerou o resultado “fraco ao ponto da irritação”.
O Eichmann cinematográfico é uma distorção, baseado nos nove dias de cativeiro de Eichmann na Argentina. Nove dias que se tornaram objeto de fascínio cinematográfico graças a um relato que pode muito bem ser uma ficção.
Não é de admirar. Na celebração que Harel faz de si mesmo e do Mossad, Eichmann figurava como pouco mais que um adereço de palco, e o filme permaneceu fiel ao livro — se não também, ironicamente, a uma variante da visão arendtiana. Quando a equipe israelense capturou Eichmann, escreveu Harel, “eles acreditavam que teriam que lidar com um cérebro satânico, capaz de lhes surpreender de forma ousada”. Mas não por muito tempo:
No início de seu cativeiro, Eichmann tremia sempre que algo incomum acontecia. Quando lhe mandavam levantar, tremia como uma folha. Na primeira vez que o levaram ao pátio para seu exercício diário, ele estava em estado de terror absoluto, aparentemente acreditando que o estavam levando para fora para matá-lo. Ele se comportava como um escravo assustado e submisso, cujo único objetivo era agradar seus novos mestres. “Não foi fácil”, escreveu Harel, “para os homens conciliar a realidade desse prisioneiro miserável com a imagem do super-homem que operacionalizou o extermínio de milhões de judeus.”
O ingrediente que faltava era óbvio, e não era a falta de suspense: afinal, quem na plateia de um cinema não saberia que a história terminava com Eichmann sendo contrabandeado da Argentina para Israel? Para tornar um filme envolvente, era necessário um drama humano. Mas se o prisioneiro estava tão assustado, submisso e miserável — tão fraco, tão banal — como seria possível construir um diálogo dramático em torno dele?
II. Eichmann Fala!
Apesar do fracasso do filme para a TV, as revelações inovadoras de Harel abriram as portas para a concorrência. Se Harel conseguiu publicar (e lucrar com) um relato da operação antes secreta, como poderiam outros membros da equipe ser privados de seu momento de destaque?
Eis que surge Peter "Zvika" Malkin, um corpulento agente do Shin Bet cuja missão era capturar Eichmann e subjugá-lo no momento da captura. Nascido na Polônia em 1927 e criado nos violentos becos do porto de Haifa, Malkin era o tipo de agente de que toda organização de espionagem precisa de ter pelo menos um: um brutamontes esperto, de raciocínio rápido, lábia afiada e dissimulado. Além de sua força física, ele era bom em disfarces e em abrir fechaduras. Ele também entendia de explosivos e havia servido como sapador na guerra de independência de Israel.
Durante a missão na Argentina, foi Malkin quem (com alguma ajuda) colocou Eichmann no carro de fuga, garantindo assim sua fama como o judeu que primeiro pôs as mãos no assassino em massa nazista. Sua carreira de mais de um quarto de século nos serviços secretos de Israel — nos últimos anos, ele passou para o Mossad — incluiria o rastreamento de cientistas alemães de foguetes no Egito, a descoberta de espiões soviéticos em Israel e outras façanhas envoltas em segredo. Ele recebeu duas vezes o prêmio máximo de segurança de Israel.
Após se aposentar do serviço em 1976, Malkin tentou alcançar a fama, liderando uma operação privada para capturar Josef Mengele, o notório médico da SS em Auschwitz conhecido como o "Anjo da Morte". Mas nada resultou disso: Mengele já havia se afogado alguns anos antes no Brasil. Nessa época, Malkin vivia principalmente em um estúdio no Lower East Side de Manhattan, onde dirigia uma consultoria de "segurança e antiterrorismo". Tendo-se tornado, eventualmente, um cidadão americano naturalizado, ele parecia destinado a desaparecer: mais um veterano relegado ao esquecimento nas guerras clandestinas de Israel.
Em vez disso, para o bem de sua fama, Malkin reescreveu completamente o roteiro da captura de Eichmann. Em 1983, aproveitando o precedente de Harel, ele publicou (com o jornalista israelense Uri Dan) seu próprio relato da operação. Lá, ele usou um pseudônimo ("Peter Mann"), mas em 1986 saiu das sombras quando o Museu Judaico de Manhattan organizou uma exposição para marcar o 25º aniversário do julgamento de Eichmann. Malkin discursou na abertura, o que lhe granjeou uma fotografia e entrevista na página dois do New York Times sob a manchete dramática: "Homem que capturou Eichmann relembra papel secreto". Ele estava a caminho do estrelato.
Em 1990, Malkin (com o jornalista americano Harry Stein) publicou “Eichmann in My Hands”: uma combinação de autobiografia e thriller de espionagem. No livro e em entrevistas, ele ofereceu uma revelação surpreendente: em seu turno durante aquelas longas noites no esconderijo, ele desafiou ordens e se envolveu secretamente em conversas profundas e francas com o cativo. O livro relata essas conversas em detalhes, algumas delas supostamente literalmente, apesar das três décadas decorridas.
Na verdade, este “longo diálogo com o seu prisioneiro”, como o descreveu o Times, foi a peça central do livro. Ele não apenas alegou abrir uma janela para a verdadeira mente de Eichmann, como também afirmou ter sido a persuadir Eichmann a concordar por escrito com um julgamento em Israel, algo que o “seu” prisioneiro tinha inicialmente relutado em fazer.
Aqui estava a profundidade emocional que sempre faltou à história. “Kirkus Reviews”, a influente coluna dedicada a pré-publicações, saudou o livro de Malkin como “uma combinação magistral de drama envolvente e questões morais convincentes”. A dramatização logo se seguiu. Em 1996, o livro foi transformado em filme para televisão, “The Man Who Captured Eichmann”, estrelado por Arliss Howard como Malkin e Robert Duvall como Eichmann. Saudado pelo Times como “um drama psicológico poderoso”, foi elogiado no Los Angeles Times como uma grande melhoria em relação ao “pulso lento” e “monótono” de "A Casa na Rua Garibaldi" – uma qualidade atribuível precisamente à sua representação de Eichmann “em grande parte através do prisma de Malkin”.
O livro e o filme para televisão (para os quais Malkin atuou como consultor) fizeram dele o “homem que capturou Eichmann”. As luvas de couro que ele usou ao impor as mãos sobre o fugitivo foram fundidas em bronze e colocadas à venda em edição limitada. Em 2002, foram publicados desenhos que ele fez durante seus turnos observando o prisioneiro, e alguns foram exibidos no Museu de Israel, em vários centros e galerias comunitárias judaicas nos Estados Unidos, e na Wannsee House, em Berlim, onde em 1942 Eichmann participou da conferência de planejamento nazista para a “solução final”. Os depoimentos, reunidos em seu site, o descreveram como charmoso, dramático, bem-humorado, memorável, fascinante, caloroso e espirituoso.
A certa altura, ele até criou a Fundação Peter Z. Malkin, cujo propósito declarado era permitir-lhe “dar palestras mensais para jovens e adultos em todo o mundo, gratuitamente”. Nessas aparições, ele precisava de pouca orientação. Uma visita de Malkin ao jornal Forward começou com uma breve pergunta à qual ele respondeu “falando por duas horas e 45 minutos antes que alguém pudesse fazer a próxima pergunta”.
A morte de Malkin em 2005, aos setenta e sete anos, gerou obituários reverentes nos principais jornais americanos e britânicos; a revista do New York Times chegou a publicar um perfil póstumo — na verdade, uma sinopse de seu livro — em sua edição de fim de ano de 2005. Ele terminou a vida como um herói muito aclamado, eclipsando em muito Isser Harel.
Por quê? O que tornou o “longo diálogo” de Eichmann com Malkin tão fascinante, especialmente para os judeus? Em primeiro lugar, a forte associação desses dois homens. Embora Malkin, que chegou a Haifa antes da guerra, não fosse um sobrevivente da Shoá, ele havia perdido uma irmã e seus filhos, que ficaram para trás. Assim, ele reunia em uma só pessoa a vítima judia e o vingador israelense. Sozinho na sala com Eichmann, ele se tornou não apenas um interrogador, mas “todo judeu”. Além disso, o fato de os guardas estarem proibidos de falar com o prisioneiro impregnava seus colóquios com um aroma inebriante do secreto e do proibido — isso, apesar de, quando o livro foi publicado, grande parte do conteúdo em si não ser realmente novo.
Como Malkin relata, em suas conversas, Eichmann ensaiou vários pontos que posteriormente levantaria em seu interrogatório e novamente em seu julgamento. Por exemplo: ele era um soldado obediente que apenas seguia ordens; ele organizava apenas o transporte de judeus, não seu extermínio; e ele não tinha nada contra os judeus em si. (“Eu nunca fui antissemita”, disse ele a Malkin. “Sempre gostei de judeus.”)
Mas Eichmann, descobriu Malkin, tinha “uma mente afiada”. Embora “às vezes francamente obsequioso... ele também era astuto. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.” Em suas trocas de argumentos, Eichmann se defendeu “com uma frieza serena... Não foi tão fácil quanto eu imaginava formular respostas coerentes”. A deles era uma batalha secreta de inteligência, entre captor e prisioneiro, judeu e nazista, cujas conversas proibidas os transformaram em “co-conspiradores”.
Dois aspectos do diálogo em seu esconderijo divergiram marcadamente do que seria ouvido posteriormente no julgamento, tornando-os ainda mais instigantes. O primeiro consistia em momentos nos quais Eichmann expressava preocupação amorosa por sua família, especialmente por seu filho mais novo; ele suspeitava que eles também poderiam ser alvos, e seus medos davam origem a “paroxismos de angústia e desespero”. O segundo, por outro lado, surgia em explosões que repentinamente expunham o ódio aos judeus arraigado nele. Ambas as qualidades reforçaram a imagem que Malkin tinha dele como alguém profundamente maligno, mas ao mesmo tempo muito humano.
A troca de palavras mais famosa entre eles reuniu todos esses elementos:
“O filho da minha irmã, meu companheiro de brincadeiras favorito [disse Malkin a Eichmann], tinha a mesma idade do seu filho. Também era louro e tinha olhos azuis, assim como o seu filho. E você o matou.”
Sinceramente perplexo com a observação, ele esperou um instante para ver se eu a ampliaria. “Sim”, disse ele finalmente, “mas ele era judeu, não era?”
Em uma passagem culminante, o diálogo atinge seu resultado prático: a assinatura, por Eichmann, do acordo para ser julgado em Israel. Segundo Malkin, somente ele conseguiu isso concedendo a Eichmann pequenos privilégios ilícitos (vinho, cigarros, música em um toca-discos) e conquistando sua confiança.
III. Eichmann se torna Kingsley
Se, graças ao seu poder dramático, a narrativa da captura de Peter Malkin substituiu a de Harel, nem mesmo ele poderia ter imaginado os extremos a que a sua versão dos acontecimentos levaria após a sua morte.
Em 2018, a MGM lançou "Operation Finale", a maior produção da história de captura já feita. Seu diretor, Chris Weitz, disse que foi influenciado “mais pelas memórias de Peter Malkin” do que por qualquer outro livro sobre o assunto. É verdade que Weitz também afirmou que o filme foi baseado em “muitas fontes primárias”. Mas, na verdade, a produção da MGM baseou-se extensivamente no livro de Malkin, e exclusivamente nas conversas de Malkin com Eichmann, para as quais não existe outra fonte.
Weitz então tomou uma decisão que levou a narrativa de Malkin a um patamar mais elevado. No livro de Malkin e no seu derivado televisivo, Eichmann ainda guardava uma semelhança residual com a figura “miserável” lembrada pelos membros da equipe israelense. Mas quando Weitz escalou o reverenciado Sir Ben Kingsley como Eichmann, aquela figura miserável saiu voando pela janela.
Como o próprio Weitz observou, Kingsley trouxe “uma tremenda quantidade de emoção e carisma” ao personagem de Eichmann. Os revisores concordaram. O crítico do New York Times escreveu com admiração que Kingsley, como Eichmann, “não é capaz de suprimir nem o seu carisma natural nem os seus aspectos malignos”. A Time Out elogiou Kingsley por apresentar “uma atuação complexa e magistral, gerando mais empatia por um nazista do que se poderia esperar”. Eichmann, lembrado por Harel como “submisso”, era agora retratado como se “seja parente de Hannibal Lecter”, escreveu um crítico, “todo astuto e diabólico, um jogador de xadrez quadridimensional”.
Um crítico israelense que assistiu uma exibição para um público judeu em Nova York descreveu o efeito sobre os espectadores produzido pelo Eichmann de Kingsley ao mesmo tempo “astuto, mas não furioso, cínico e não ideológico, frágil e não ameaçador”:
O público pareceu cair no feitiço de Eichmann. Os espectadores sentiram-se deslocados desconfortavelmente quando Eichmann emergiu diante de seus olhos no auge de sua glória humana. Inteligente, experiente, sensível e assustado. E, o pior de tudo, com senso de humor.
Este Eichmann – o Eichmann de Malkin, amplificado por Weitz e Kingsley – rapidamente se tornou consagrado como o Eichmann dos judeus americanos. Quatro locais sagrados judaicos – o Museu Memorial da Shoá dos EUA em Washington, a 92nd Street Y em Nova Iorque, o JCC em Manhattan e o Museu da Tolerância em Los Angeles – acolheram exibições especiais de pré-lançamento seguidas de discussões no palco com Weitz, Kingsley e outros atores. Embora, na mídia em geral, as críticas ao filme tenham sido mistas, a maioria dos críticos judeus deu-lhe um sinal positivo com entusiasmo. Alguém aventurou-se a detectar alguma “irritação emocional” num público judeu de Nova Iorque, mas nada mais.
Por que o encanto? Parte disso foi Kingsley: se ele interpretou Eichmann desta forma, certamente deveria ser “bom para os judeus”. Afinal, ele foi escalado no passado como o pai de Anne Frank, Otto, como Simon Wiesenthal, como Itzhak Stern (na Lista de Schindler) e como Moisés. E durante toda a filmagem, Kingsley anunciou que ele trazia uma fotografia de Elie Wiesel no bolso. “Elie, estou fazendo isso por você”, ele dizia para si mesmo todos os dias no set.
Outra parte foi que o "Operation Finale" incluiu aqueles “flashbacks” da Shoá que foram o obstáculo para Leon Uris. Ainda na primavera anterior, uma sondagem revelou que dois terços dos americanos nascidos entre 1980 e 2000 não tinham ideia do que era Auschwitz. Poucos deles haviam estado no Museu da Shoá em Washington. E agora, retratado de forma incontestável, a Shoá chegara até eles.
Se assim fosse, que diferença fazia se o filme, “baseado na incrível história real”, talvez não tivesse retratado Eichmann com perfeição? Os filmes de Hollywood são deliberadamente concebidos para entreter e só depois (ocasionalmente) para educar. Eles operam segundo suas próprias regras, comercialmente testadas e aprovadas. Então, os judeus não deveriam ser gratos quando um grande estúdio inclui flashbacks da solução final em um filme de perseguição destinado a atrair o público mais jovem?
O carisma aliado ao antissemitismo tem uma história nefasta como o principal vetor para a disseminação do antissemitismo para as massas.
Outro ponto importante foi a maneira como o filme confirmou habilmente os dois lados da discussão sobre a tese da banalidade do mal de Arendt. Será que Alan Dershowitz, de Harvard, estava certo ao declarar que “a representação ficcional de Eichmann por Kingsley, não como banal, mas como brilhantemente maligno, é muito mais realista do que o relato supostamente não ficcional de Arendt”? Ou será que David Sims, no The Atlantic, acertou ao afirmar que “o filme de Weitz nunca ecoa explicitamente a frase de Arendt, mas o retrato de Eichmann no filme, interpretado com inegável charme por Ben Kingsley, é permeado por ela”? Embora tenham assistido ao mesmo filme, um tinha certeza de que ele refutava a tese de Arendt, enquanto o outro a confirmava.
Weitz e Kingsley obviamente contavam com o interesse que o filme despertaria no público judaico. Mas, como ambos também temiam que escalar Sir Ben como Eichmann pudesse ser um problema, trabalharam arduamente com antecedência para enquadrar qualquer possível consequência negativa como algo retrógrado. Sua mensagem: era legítimo mostrar o lado humano de Eichmann, porque ele era humano.
“A tragédia é que os nazistas eram seres humanos”, disse Kingsley. “E acho que demonizá-los, interpretá-los como vilões de filmes B, como algum vilão de história em quadrinhos, seria uma terrível injustiça à história e às vítimas do Holocausto.” “Ben e eu”, disse Weitz, “estávamos determinados a retratar Eichmann como um ser humano. Não para obter a simpatia das pessoas por ele, mas para indicar que esse tipo de crime não é cometido apenas por demagogos e sociopatas.”
Tudo isso desviou-se habilmente do ponto principal. Não se tratava de Kingsley “humanizar” Eichmann. Ninguém duvidava que Eichmann tivesse uma gama de emoções humanas, que amasse sua esposa e filhos ou que apreciasse pequenos prazeres. A questão, mais uma vez, era, e é, que Weitz e Kingsley o retratam como empático, inteligente, afável e, sim, “maligno”. O Eichmann deles não é apenas humano; esse prisioneiro é cativante. Seus captores israelenses, escreveu um crítico, “empalidecem em comparação a ele”.
Nada disso tinha qualquer semelhança com Eichmann durante seu cativeiro na Argentina, de acordo com as outras testemunhas. Para Harel, ele era um “miserável nanico, que havia perdido todo vestígio de sua antiga superioridade e arrogância no momento em que foi despojado de seu uniforme”. Ele era um “ninguém, desprovido de dignidade e orgulho humanos”. Rafi Eitan foi ainda mais direto. “Eu queria entender o caráter de Eichmann, sua capacidade”, disse ele. E o que ele descobriu? Uma “pessoa muito, muito medíocre”. Eitan acrescentou, ironicamente: “O que é assustador é que qualquer pessoa com apenas uma capacidade mediana para realizar coisas – e eu não acho que ele fosse mais do que isso – pudesse alcançar o que ele alcançou... pudesse acabar fazendo o que ele fez”.
É claro que o Eichmann de 1960, capturado, vendado e acorrentado a uma cama, não era mais o Eichmann de 1942: o perseguidor de judeus determinado, implacável e demoniacamente bem-sucedido. Aquele Eichmann não deveria ser subestimado. Mas Eitan, assim como Harel, relatou o que viu. O que significa que o Eichmann do "Operation Finale" definitivamente não era o mesmo Eichmann daqueles nove dias no esconderijo. A pessoa lembrada por Malkin, amplificada por Weitz e exagerada por Kingsley, era um homem completamente diferente.
IV. Não em Israel
À primeira vista, esta versão hollywoodiana de Eichmann deveria ter despertado muito interesse em Israel. Além do próprio Eichmann, praticamente todos os personagens são membros israelenses da equipe de captura. Até mesmo Ben-Gurion faz uma aparição. O filme também conta com um ator israelense bastante conhecido, Lior Raz (astro de Fauda), no papel de Harel.
Mas não foi o que aconteceu. Pouco depois de sua estreia nos Estados Unidos, "Operation Finale" foi anunciado em Israel como "em breve nos cinemas". Materiais promocionais e um pôster em hebraico circularam, mas foi só isso. O filme nunca teve uma exibição teste com o público em Israel (como aconteceu em Nova York e Londres) e nem sequer foi submetido à classificação indicativa israelense. Em vez disso, "Operation Finale" foi direto para a Netflix — uma decisão que causou estranheza, já que a falta de exibição nos cinemas o relegou ao esquecimento da crítica.
Como foi possível que um filme aplaudido no Museu do Holocausto em Washington e elogiado por críticos judeus americanos sequer tenha sido exibido em Jerusalém e Tel Aviv? O que havia em "Operation Finale" que impediu seu lançamento em Israel?
Foi a interpretação de Kingsley como Eichmann. O ator israelense Raz previu isso em seu discurso no Museu do Holocausto em Washington:
Quando vemos Eichmann no filme, e vemos a ternura que Sir Ben [Kingsley] demonstra em sua personalidade, e vemos isso na tela, acredito que para os israelenses será um pouco difícil, porque sentimos compaixão por ele por um segundo, por um minuto, e para os israelenses eu sei que será difícil.
Sim, “sentir compaixão” por Eichmann e apreciar sua “ternura” teria sido “difícil” para a maioria dos israelenses. A mensagem implícita de Raz para seu público no santuário americano da Shoá, no entanto, era que seus compatriotas não possuíam a compreensão mais profunda proporcionada pela “arte”. Depois que o filme chegou à Netflix em Israel, Weitz, ecoando o mesmo sentimento e exalando condescendência, reiterou sua mensagem básica.
“A reação tem sido interessante”, disse Weitz sobre a resposta israelense, “realmente mista. Uma observação forte que fiz é que muitas pessoas ficaram surpresas com a representação de Eichmann como um ser humano.” Os israelenses, que viam Eichmann como uma “figura realmente demoníaca”, tiveram dificuldade em “compreender o fato de que ele também era um ser humano”. Mas, acrescentou, foi exatamente por isso que ele e Kingsley decidiram retratá-lo dessa maneira — para “pressionar mais nosso senso de ética, em vez de nos desculpar identificando esses malfeitores como apenas ‘o outro’”.
Foi Hollywood que transformou Eichmann nesse ser humano supostamente mais raro, afavelmente maligno, capaz de argumentação e desafio mesmo acorrentado a uma cama, encarando a morte.
Como vimos, foram os captores israelenses de Eichmann que o rotularam como o mero humano que ele era. O livro de Harel, que retrata Eichmann como trêmulo e submisso, foi lido por quase todos os israelenses de uma geração anterior. Em contraste, foi Weitz quem transformou Eichmann naquele ser humano supostamente mais raro, afavelmente maligno, capaz de argumentação e desafio mesmo acorrentado a uma cama, encarando a morte. "Eichmann nunca pareceu tão bom", dizia a manchete da única grande crítica em hebraico, no site israelense Ynet: "O filme retrata Eichmann no papel cinematográfico familiar do mal ligado ao brilho intelectual e ao humor... Weitz e [o roteirista Matthew] Orton transformam um personagem desprezível em uma atração maligna."
Em resumo, Kingsley acabou interpretando exatamente o "vilão de filme B" que disse não querer interpretar. Se o filme tivesse estreado nos cinemas israelenses, é provável que críticas como essa tivessem se multiplicado. Em Israel, mais próximo do Holocausto, mais distante de Hollywood, e ainda teimosamente resistente às manipulações “artísticas” da Solução Final para fins atuais, a história prevaleceu sobre a celebridade.
V. Nunca Aconteceu?
Até agora, vimos como, para benefício póstumo de Eichmann, a versão de Malkin definitivamente suplantou a de Harel, pelo menos nos Estados Unidos. Agora, à luz da resposta israelense, quero perguntar se ainda outra versão merece definitivamente suplantar tanto a de Malkin quanto a de seus avatares em Hollywood. Essa é a versão de outro membro da equipe de captura: Zvi Aharoni.
Nascido em Frankfurt em 1921, Aharoni fugiu da perseguição nazista na adolescência e chegou à Palestina em 1938. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se juntou ao exército britânico. Como falava alemão nativo, foi designado interrogador de oficiais alemães capturados no Egito, Norte da África e Itália.
Aharoni lutou na guerra de independência de Israel como comandante de companhia e, posteriormente, ingressou no Shin Bet, onde ganhou renome por suas habilidades como investigador e interrogador. Em 1958, viajou para Chicago para estudar as técnicas mais recentes de interrogatório em um famoso laboratório americano. Ao retornar para casa, ele trouxe consigo o primeiro polígrafo de Israel, um presente do chefe da contraespionagem da CIA, James Angleton.
Quando informações confiáveis sobre o paradeiro de Eichmann chegaram a Israel, foi Aharoni quem Isser Harel enviou a Buenos Aires para fazer uma identificação positiva. Aharoni localizou a casa de Eichmann, colocou-o e sua família sob vigilância e até conseguiu fotos de perto do fugitivo. Ele também estabeleceu a rotina diária de Eichmann, chegando a sentar-se diretamente atrás dele em um ônibus. Aharoni participou da captura como motorista do principal carro de fuga. Já no esconderijo, ele fez com que Eichmann admitisse sua verdadeira identidade e conduziu o interrogatório em campo.
Anos mais tarde, Rafi Eitan citou Aharoni quando questionado sobre quem, em sua opinião, mais contribuiu para o sucesso da operação. “Ele encontrou Eichmann e nos contagiou com a paixão pela importância histórica de levá-lo a julgamento.” Outro membro da equipe, Avraham Shalom (mais tarde chefe do Shin Bet), deu a mesma resposta: “Aharoni não recebeu o devido reconhecimento. Acho que ele contribuiu mais do que qualquer outra pessoa, até mais do que Isser [Harel]. Ele foi a força motriz.” Meir Amit, sucessor de Harel como chefe do Mossad, descreveu Aharoni como “o principal personagem da operação, do início ao fim.”
Mais tarde, Aharoni liderou um esforço para localizar Josef Mengele que, segundo ele, poderia ter sido bem-sucedido se Harel não tivesse interrompido a operação. Naquela ocasião ele chefiava a “Cesaréia”, o braço operacional do Mossad. Após se aposentar do serviço público em 1970, ele fez negócios em Hong Kong e na China, dirigiu um escritório de investigação particular em Tel Aviv e, finalmente, mudou-se com sua esposa inglesa para uma vila no sudoeste da Inglaterra. Lá, retomou seu nome original (Hermann Arndt), criou galinhas e cuidou de parques infantis públicos. Ele faleceu em 2012, aos noventa e um anos; houve alguns obituários britânicos, nenhum nos Estados Unidos.
Provavelmente, Aharoni nunca teria contado sua versão se Harel e Malkin não tivessem divulgado a deles. Mas Malkin, ao construir sua própria história, optou a cada momento por menosprezar Aharoni. Alguns exemplos: em sua vigilância de Eichmann, escreveu Malkin, Aharoni “cometeu algumas gafes que pareciam quase inacreditáveis” e “quase arruinou a investigação”. “Ele estava com medo. Era um novato.” Durante os interrogatórios de Eichmann, “seu alemão conciso e preciso, sua evidente impaciência com grande parte do que ouvia, seu ar de ameaça nada sutil, devem ter dado a Eichmann uma forte sensação de déjà vu”.
Aharoni então contra-atacou. Em 1992, ele publicou seu relato na imprensa israelense e, em 1996, publicou um livro em alemão (com o jornalista Wilhelm Dietl). Uma tradução foi publicada no ano seguinte sob o título “Operation Eichmann”.
Foi um acerto de contas épico. Segundo Aharoni, Malkin era “mais parte do problema do que da solução” na operação contra Eichmann. Ele não conseguiu subjugar Eichmann sem dificuldades; em vez disso, os dois acabaram lutando em uma vala. E ele era “o único membro da equipe para quem a palavra disciplina não tinha significado. Não se podia confiar em seus relatórios. Para ele, era sempre mais importante contar uma boa história e fazer piadas do que se ater aos fatos.”
“No que diz respeito às supostas conversas de Malkin com Eichmann”, escreveu Aharoni, de forma incisiva, 90% delas são apenas fruto da sua imaginação. As descrições comoventes e dilacerantes dos confrontos entre o sequestrador judeu e o prisioneiro nazista foram livremente inventadas por Malkin. As supostas conversas de Zvika e Eichmann dificilmente teriam passado despercebidas aos outros membros da equipe se tivessem realmente acontecido.
Como ele poderia ter certeza disso? Afinal, Malkin disse que manteve as conversas em segredo, e Aharoni não estava na sala com Malkin e Eichmann. Mas Aharoni acrescenta o seguinte:
Malkin esqueceu de mencionar que ele e Eichmann não tinham uma língua em comum. O iídiche de Zvika — que era o mais próximo que ele chegava de falar alemão — era bom o suficiente para dar ordens simples a Eichmann e permitir que ele usasse o banheiro. Não era suficiente para diálogos profundos sobre a Shoá. Eichmann, por outro lado, não entendia nem hebraico nem iídiche.
Em uma entrevista alguns anos depois, Aharoni foi ainda mais mordaz: “Nem mesmo um gênio como Einstein consegue falar um idioma que não conhece”. Na época da operação, Malkin só falava hebraico, iídiche, “inglês rudimentar e um extenso repertório de palavrões em russo e árabe”.
Malkin conseguia se comunicar de forma significativa com Eichmann? Em 1996, antes de Aharoni fazer a pergunta, Malkin disse em uma entrevista que havia falado com Eichmann em “alemão tosco e meio iídiche; ele entendeu bem o que eu queria dizer. Tive muito tempo para conversar com ele várias vezes”. Em 2000, depois da acusação de Aharoni, Malkin ficou na defensiva: “Eu sabia e sei alemão. Alguém que saiba alemão pode me testar”.
A questão, porém, não é se Eichmann entendeu Malkin. É o quão bem Malkin entendeu Eichmann. Foi a versão de Eichmann sobre seus atos que tornou a suposta troca de palavras convincente. Falantes de alemão e iídiche podem conduzir uma discussão com um alto grau de inteligibilidade mútua, se se esforçarem para isso. Mas será que Malkin, com seu iídiche falado na cozinha (ele cresceu na Palestina) e seu alemão tosco, realmente sabia que Eichmann estava "expressando nuances sutis"? Poderia-se confiar que ele se lembraria e transmitiria as palavras de Eichmann palavra por palavra, como ele alegou fazer em seu livro? Nunca saberemos; a questão permanece.
Não são apenas as conversas que Aharoni descarta. Acima de tudo, ele contesta a alegação de Malkin de ter persuadido Eichmann a assinar a declaração concordando em ser julgado em Israel. Nesse caso, Aharoni não se baseia em dedução. Isto é pessoal: ele insiste que foi ele quem ditou o texto em alemão para Eichmann, que o transcreveu, fez um acréscimo, assinou e o devolveu. Malkin não teve absolutamente nada a ver com isso.
Será que Malkin, em seu livro, se apropriou indevidamente do crédito por algo que não fez?
VI. “Por Minha Própria Vontade”
Por um bom motivo a declaração de Eichmann foi o eixo do relato de Malkin. Na época Israel atribuiu-lhe grande importância, eis que mais tarde uma fotocópia do original foi enviada ao governo argentino, e o texto completo apareceu em jornais de todo o mundo, geralmente sob alguma variação da manchete do Washington Post: “Eichmann, preso na Argentina, foi para Israel por sua própria vontade”.
O original, redigido à mão por Eichmann e assinado por ele, encontra-se hoje em um arquivo policial nos Arquivos do Estado de Israel. Eis o que diz:
Eu, o abaixo-assinado, Adolf Eichmann, declaro por minha livre e espontânea vontade:
Que, uma vez que minha verdadeira identidade foi revelada, vejo claramente que é inútil tentar escapar do julgamento por mais tempo. Por meio deste documento, expresso minha prontidão para viajar a Israel para comparecer perante a justiça, frente a tribunal autorizado.
Fica claro e entendido que receberei aconselhamento jurídico e que me esforçarei para registrar os fatos dos meus últimos anos de atividades públicas na Alemanha, sem quaisquer floreios, para que as gerações futuras tenham um retrato fiel. Esta declaração faço por minha livre e espontânea vontade, não por promessas feitas e não por ameaças. Desejo finalmente encontrar a paz interior.
Como não me lembro de todos os detalhes e talvez eu confunda os fatos, solicito auxílio, na forma da disponibilização de documentos e declarações juramentadas que me ajudem na busca pela verdade.
Adolf Eichmann,
Buenos Aires, maio de 1960.
A frase mais significativa nesta declaração, repetida duas vezes, é "por minha própria vontade". Obviamente, ninguém acreditaria que um criminoso de guerra nazista iria voluntariamente a Israel para ser julgado. Obviamente, Eichmann faria questão de dizer mais tarde que assinou sob coação. Como observou o jornal alemão Der Spiegel, Israel estava pedindo ao mundo que acreditasse que "a atividade dos israelenses se limitou a possibilitar que este ex-tenente-coronel da SS voasse para Israel gratuitamente".
Então, por que os sequestradores de Eichmann se deram ao trabalho de obter a declaração em primeiro lugar?
Harel propôs uma explicação, colocando-se no centro. Em seu livro, ele afirma que a ideia de fazer Eichmann assinar um documento partiu dele, no esconderijo:
"Pedi a Aharoni que questionasse [Eichmann] sobre sua atitude em relação a ser julgado. Foi nesse momento que sugeri que tentássemos obter seu consentimento por escrito para viajar a Israel e ser julgado lá. Nem por um instante imaginei que tal documento teria qualquer validade legal quando se questionasse nosso direito de julgar um homem depois de sequestrá-lo e levá-lo para Israel. Mesmo assim, atribuí certa importância ética a tal declaração."
Que o orquestrador de um sequestro se preocupasse repentinamente com a ética de prender alguém contra a sua vontade parece implausível. Também não está claro que tipo de "importância ética" tal documento teria. O objetivo desta versão, como em grande parte do livro de Harel, era colocar o autor no centro de tudo.
Em termos de pura implausibilidade, no entanto, a explicação de Harel não se compara à oferecida no filme "Operation Finale". Lá, Harel entra na casa segura e faz este anúncio: “A El Al se recusa a enviar um avião. Eles dizem que primeiro precisam de algo nosso: um documento assinado por Eichmann dizendo que ele virá voluntariamente para Israel.”
Sem dúvida, muitos agora acreditam que essa história absurda é verdadeira. Sem dúvida, ela se infiltrou na trama para criar uma sensação de urgência: sem a assinatura de Eichmann, a operação fracassaria! Em termos cinematográficos, isso é um "gancho" inventado unicamente para dar aos protagonistas algo para trabalhar com.
Aharoni oferece a explicação mais plausível. Segundo ele, a ideia de uma declaração de Eichmann partiu de Haim Cohen, na época procurador-geral de Israel e posteriormente juiz da Suprema Corte. Conhecendo-o de investigações anteriores, Aharoni perguntou-lhe se deveria tentar obter uma confissão assinada de Eichmann enquanto ele ainda estava na Argentina. Eichmann deveria ser pressionado a "admitir sua culpa em relação ao Terceiro Reich imediatamente? Eu deveria exigir uma declaração por escrito dele?"
Cohen disse que não; tudo o que era necessário de Eichmann era uma declaração admitindo sua identidade e, se possível, expressando a disposição de ser julgado. "A fórmula geral me foi fornecida por Haim Cohen", escreveu Aharoni mais tarde. “Ele achou que isso facilitaria o processo legal e poderia nos ajudar caso fôssemos pegos antes de sairmos do território argentino.” Ele poderia ter acrescentado que também poderia amenizar a situação caso a Argentina se indignasse, o que, de fato, aconteceu. A declaração visava dar tempo a Israel e preservar a imagem da Argentina.
Então, qual é o motivo pelo qual Israel queria a declaração de Eichmann? Como seus captores a obtiveram? Dado que pouco aconteceu na casa segura durante os nove dias de cativeiro de Eichmann, sua assinatura neste documento é o clímax do longo período da história entre o sequestro e a fuga.
Existem duas versões, a de Malkin e a de Aharoni. Elas são totalmente irreconciliáveis.
De acordo com Malkin, foi somente depois de oferecer vinho, cigarros e um disco de flamenco a Eichmann que este assinou o documento.
De acordo com Malkin em seu livro, Isser Harel decidiu o texto e o colocou no papel. Eichmann não assinou, insistindo que deveria ser julgado na Alemanha. Então, em 19 de maio de 1960, depois de Malkin ter oferecido vinho, cigarros e um disco de flamenco a Eichmann, este pediu o documento. Ele estava pronto:
“Posso acrescentar algo?”
“Claro.”
“Posso usar sua caneta?”
Entreguei-a a ele e, em seguida, soltei a algema de sua perna.
Eichmann acrescentou um parágrafo, solicitando acesso a documentos.
Ele olhou para cima. “Muito bem, vou assinar agora.” Ele fez uma pausa. “O que está escrito está correto. Será bom poder me explicar.”
De pé, diante dele, com o coração acelerado, observei enquanto ele escrevia: “Adolf Eichmann, Buenos Aires, maio de 1960.”
Entregaram a Harel a declaração assinada.
Seus olhos se arregalaram em agradável surpresa ao examiná-la. “Como isso aconteceu?”
“Peter conseguiu.”
Ele se virou para mim, sorrindo. “Ótimo. Excelente trabalho. Isso é de vital importância.”
Essa cena é dramaticamente recriada no filme "Operation Finale". Malkin, com o papel na mão, desce os degraus da casa segura em direção à sala de estar. Os membros da equipe, cabisbaixos e desesperados por não conseguirem embarcar no voo da El Al, se levantam. Ele ergue o papel. "Vocês conseguiram!", exclama a mulher apresentada como o interesse amoroso de Malkin.
E depois há a versão de Aharoni. Em seu livro, ele descreve ter perguntado a Eichmann se ele concordaria em ser julgado. Quando Eichmann propôs que o julgamento acontecesse na Alemanha, Áustria ou Argentina, Aharoni reagiu firmemente: “Você não pode estar falando sério. Você está insultando minha inteligência... Será Israel ou nada.” No dia seguinte, Eichmann disse que havia tomado uma decisão e estava preparado para ir a Israel.
“Você me daria isso por escrito?”
Eichmann concordou. Tirei seus óculos de proteção e lhe dei uma caneta esferográfica e papel. Juntos, formulamos sua declaração de confirmação em alemão. Ditei meu rascunho. Onde ele não tinha objeções, ele o escrevia lentamente, frase por frase, como se estivesse em profunda reflexão. A frase final era só dele...
Ao assinar, ele me perguntou a data. Ele obviamente havia perdido toda a noção do tempo. Para nós, estava tudo bem. Queríamos que continuasse assim, mais um fator na pressão psicológica que estávamos exercendo.
Eu disse a ele: “Basta escrever Buenos Aires, maio de 1960, isso será suficiente.”
Ele assim fez e me entregou a carta com um leve sorriso. Sua expressão parecia dizer: “Agora meu destino está selado.”
VII. Verdade versus Drama
Não há como chegar a um meio termo entre esses dois relatos. Ou Malkin estava com Eichmann enquanto ele escrevia, assinava e datava a declaração, ou foi Aharoni quem estava. Diante de afirmações tão conflitantes, somos tentados a concluir, como acontece com muitas outras coisas nessa história, que não podemos saber.
Um documento publicado recentemente, no entanto, muda completamente a resposta para um lado. Estou partindo de uma premissa que poucos historiadores contestariam: como regra geral, memorandos internos publicados próximos ao evento são provavelmente mais aderentes aos fatos do que memórias publicadas décadas depois. É por isso que os historiadores aguardam ansiosamente a abertura dos arquivos.
Em 2012, o Mossad autorizou a criação de uma exposição itinerante sobre a captura de Eichmann. Seu curador, Avner Avraham, um ex-agente do Mossad, vasculhou o "sótão" do Mossad e reuniu uma miscelânea de artefatos e documentos: os negativos do filme de vigilância de Eichmann antes de sua captura, os óculos de proteção colocados sobre seus olhos, a lista de itens encontrados em sua posse, a seringa usada para sedá-lo antes de sua transferência para o voo da El Al, passaportes falsos e muito mais. A exposição foi inaugurada na sede do Mossad e, em seguida, seguiu para o Knesset e o Museu da Diáspora em Tel Aviv, antes de partir para uma turnê americana.
Entre os artefatos em exibição, há um item discreto que a maioria dos frequentadores de museus, especialmente os americanos, provavelmente passou despercebido: um documento hebraico datilografado de uma página, assinado por Zvi Aharoni. Marcado como "ultrassecreto", tem como título “apoio à memória" em hebraico. A proveniência do documento é dada como Arquivo do Mossad. Não tem data, mas o catálogo da exposição indica que é de 1960.
Por que Aharoni o escreveu? Ou por que foi instigado por seus superiores a escrevê-lo? O Estado de Israel estava prestes a usar publicamente a declaração de Eichmann, e muitos presumiriam que ela havia sido obtida sob coação. Os superiores de Aharoni queriam saber exatamente como a declaração de Eichmann havia sido obtida. Aharoni preparou seu relato imediatamente após seu retorno a Israel.
Aqui está o texto:
Em 16 de maio de 1960, vi Adolf Eichmann onde ele estava detido e tivemos uma conversa. Perguntei-lhe, entre outras coisas, se ele estava sinceramente preparado para cumprir o que me dissera em uma ocasião anterior, que aceitara seu destino e estava pronto para fazer tudo para esclarecer certos fatos sobre um determinado período, para o benefício da história.
Eichmann respondeu afirmativamente, e eu lhe perguntei se ele estava preparado para viajar a Israel por sua própria vontade, a fim de ser julgado lá. Eichmann respondeu negativamente à minha pergunta adicional e explicou que, sob certas condições, estava disposto a viajar para a Alemanha Ocidental ou para a Áustria para ser julgado, mas não para qualquer outro lugar.
Pelas condições que Eichmann impôs, entendi que ele queria se esquivar de todo o processo de julgamento e então perguntei se ele queria tempo para pensar sobre minha proposta. Eichmann concordou, e eu me encontrei com ele no dia seguinte, 17 de maio de 1960. Novamente, perguntei se ele estava disposto a ir, por sua própria vontade, a Israel para ser julgado. Ele respondeu afirmativamente e concordou em assinar uma declaração nesse sentido. Ditei a ele uma declaração que eu havia preparado antecipadamente em alemão, e ao final perguntei se ele queria acrescentar algo por iniciativa própria, e expliquei que ele era livre para acrescentar o que quisesse. Eichmann respondeu afirmativamente e, por iniciativa própria, acrescentou a última frase que aparece na declaração.
Eichmann assinou as duas páginas a meu pedido, e eu rubriquei e datei o verso.
Aqui, então, temos o relato mais próximo do momento em que Eichmann assinou a declaração.
O memorando de Aharoni é corroborado pelo original da declaração de Eichmann. Não foi apenas assinado por Eichmann; ele escreveu toda a declaração de duas páginas à mão e a assinou na parte inferior de cada página, como se assina um documento legal.
Portanto, o relato de Malkin, que afirma que Eichmann assinou uma declaração pré-preparada deixada em sua cama, não pode ser verdadeiro. Alguém capaz de compor um texto legalista em alemão deve ter trabalhado com Eichmann e ditado o conteúdo desejado para que ele pudesse escrevê-lo por completo. Esse alguém só poderia ter sido Aharoni. Seu memorando "ultrassecreto", escrito para uso interno e não para consumo público, resolve a questão, e sua inclusão em uma exposição patrocinada pelo Mossad transmite a mesma mensagem.
Há mais aspectos a serem considerados, mas eles nos levariam às profundezas da política interna do Mossad na década de 1960, que girava em torno de Harel. Em resumo, Aharoni rompeu com Harel; O relato de Harel favorecia Malkin; Aharoni chamaria o livro de Harel de “um romance policial... Isser acertava contas com as pessoas não lhes dando o crédito que mereciam”. Dois dos agentes da casa segura apoiaram veementemente a versão de Aharoni. Mas todos esses depoimentos posteriores estão distantes do evento em quinze a trinta anos. O documento de 1960 é a evidência mais clara até agora de que a versão de Aharoni, e não a de Malkin, é mais verdadeira, senão a própria verdade.
Um Eichmann à la Kingsley teria invertido o processo e transformado o julgamento em uma discussão exclusivamente sobre o homem, como Arendt erroneamente acreditava que deveria ser.
Por que importa saber quem colheu a declaração de Eichmann? Parte da resposta pode ser encontrada na lição que o ator Oscar Isaac, que interpreta Malkin em "Operation Finale", acredita que devemos tirar do suposto sucesso de Malkin:
Malkin demonstrou empatia e bondade para com Eichmann, e foi por meio disso que ele conseguiu que Eichmann assinasse voluntariamente uma confissão e fosse voluntariamente a Israel para ser julgado. Espero que as pessoas vejam isso e absorvam essa lição. Como lidar com o mal e com aqueles que são verdadeiramente culpados de coisas horríveis... a maneira mais eficaz não é necessariamente através de doses iguais de ódio, mas sim através do diálogo e da compreensão.
Este texto não é o lugar para discutir a mais eficaz forma de lidar com o mal. (Contudo, é impossível não lembrar que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain apresentou o mesmo argumento de Isaac depois de obter a assinatura de Hitler em um pedaço de papel em setembro de 1938.) Se, porém, o relato de Malkin for falso, o comportamento real de Eichmann no esconderijo não oferece o menor respaldo à afirmação de Isaac sobre a melhor forma de lidar com o mal. Eichmann se rendeu, em vez disso, à “pressão psicológica” (termo usado por Aharoni), praticada por um mestre interrogador que, segundo suas próprias contas, havia conduzido “centenas” de interrogatórios de alemães, árabes e judeus. O site oficial do Shin Bet afirma categoricamente que Eichmann assinou para evitar ser liquidado. (Aharoni, como se recordará, disse a Eichmann: “Ou será Israel ou nada.”) Se Aharoni, e não Malkin, extraiu a declaração de Eichmann, então a ideia de que “empatia e bondade” falam aos corações dos maus e dos culpados terá de encontrar em outro lugar as evidências que a sustentem.
Há ainda uma questão maior. Se Malkin imaginou ou fabricou seu papel na obtenção da assinatura de Eichmann, o que devemos pensar de suas supostas conversas secretas? Poderiam elas também ser invenções de um impostor em série?
Cada leitor chegará à sua própria conclusão. Mas qualquer produção dramática que se baseie na versão de Malkin deve estar sujeita às mesmas dúvidas que a própria versão. E se o episódio da assinatura for seu ponto crucial dramático, como em "Operation Finale", então ela se baseia em ficção, não em fatos.
Não é como se os envolvidos em "Operation Finale" não tivessem feito o dever de casa ou não conhecessem os riscos. O roteirista, Matthew Orton, certamente o fez. Ele leu todas as versões, identificou "inconsistências", mas afirmou ter se mantido "muito fiel ao que realmente aconteceu". Weitz também fez uma forte afirmação sobre a veracidade do filme. Ele admitiu pequenos ajustes, compressões de tempo e a troca do gênero de um dos membros da equipe. Mas “um erro nosso”, alertou ele, “pode ter o mesmo péssimo efeito do que fornecer munição para negacionistas da Shoá”.
Weitz, no entanto, fez uma ressalva: os captores de Eichmann, disse ele,
“frequentemente se contradiziam, o que lhe dá uma escolha a fazer em termos do que é a verdade e o que é mais dramático”.
Este é o aviso de “cuidado com o que você compra” presente em todas as adaptações históricas de Hollywood. Não é igual à posição relativista de que todas as verdades são iguais. É que a abordagem mais cinematográfica é a mais verdadeira. É por isso que a versão de Malkin sempre prevaleceu sobre a de Aharoni; afinal, desde o início, foi deliberadamente compilada como um drama.
Weitz também devia saber disso. Ele reconheceu que, embora Malkin fosse uma figura heroica, ele “também era um encantador, um sedutor e um tanto vigarista”. "Operation Finale" entrou nessa com os olhos bem abertos. O público, não teve esta chance.
VIII. A Virtude Adicional da Verdade
Tenho defendido que o Eichmann cinematográfico é uma distorção, baseado nos nove dias da vida de Eichmann em cativeiro na Argentina. Esses nove dias tornaram-se objeto de fascínio cinematográfico graças a um relato que pode muito bem ser uma ficção e que se tornou a brecha mais facilmente explorada na história de Eichmann. Crescendo cada vez mais, em "Operation Finale", deu a Eichmann uma vitória póstuma. De uma figura minúscula na cabine de vidro, ele passou, impressionantemente, a uma figura imponente na tela de cinema.
Para ser justo, nem tudo isso pode ser atribuído a Malkin: suas supostas conversas com Eichmann parecem escassas em comparação com suas versões cinematográficas, adornadas com diálogos intrincados e incisivos. "Operation Finale" chega a dar a Eichmann uma piada para contar, para demonstrar seu lado humorístico (e humano). Aqui, o filme trai até mesmo Malkin, que escreveu que Eichmann sofria de "uma completa falta de humor". Mas a licença artística que Malkin se concedeu cresceu cada vez mais em cada iteração subsequente de sua história por outros, até que em "Operation Finale" cruzou uma linha — embora uma linha que seria traçada de forma diferente em Israel da linha traçada na América.
Há um bom motivo para que este último Eichmann, o de Weitz-Kingsley, tenha feito o público judeu se mexer desconfortavelmente em seus assentos em Manhattan, e os israelenses o evitassem completamente. Estes últimos foram repelidos não pelo Eichmann humano ou pelo diabólico, mas pelo charmoso. O carisma aliado ao antissemitismo tem uma história nefasta como o principal vetor para a disseminação do antissemitismo para as massas. Sim, os filmes de Eichmann estão repletos de imagens do sofrimento judaico. Mas será que estas realmente podem superar a representação de um antissemita simpático, especialmente no ambiente atual, em que o antissemitismo criou raízes entre as elites instruídas e, em alguns países, entre parcelas significativas da população em geral?
O vienense Teddy Kollek, charmoso e brilhante, conheceu Eichmann em 1939 e orquestraria a logística de seu julgamento em 1961. Ele o descreveu, apesar do uniforme nazista, como “um indivíduo insignificante — que bem poderia ter acabado como um simples escriturário”. Talvez seja por isso que Ben-Gurion decidiu fazer de Eichmann a figura central de um julgamento saturado pela mídia — porque ele serviria de contraponto.
“Adolf Hitler deve ter precedência sobre Adolf Eichmann”, instruiu Ben-Gurion ao promotor, “mesmo que Eichmann seja o réu”. Um Eichmann à la Kingsley na cabine de vidro teria invertido o processo e transformado o julgamento em uma discussão exclusivamente sobre o homem (como Arendt erroneamente acreditava que deveria ser). Da mesma forma, um filme estrelado por um Eichmann “charmoso” está fadado a ser mais sobre o homem e menos sobre o Holocausto.
Agora, após o "Operation Finale", o modo de representar Eichmann inspirado por Malkin provavelmente já se esgotou. No entanto, é uma história que precisa ser recontada a cada geração. Como Kollek disse sobre o julgamento, seu efeito “não pode ser mantido o tempo todo... Cada um de nós esquece”.
Há um caminho a seguir? Para corrigir o registro histórico, proponho que o próximo cineasta ou dramaturgo nos apresente a história pela perspectiva de Zvi Aharoni. Um pequeno passo inicial já foi dado: a vigilância e o sequestro de Eichmann são narrados do ponto de vista de Aharoni em um curta-metragem de animação envolvente, “The Driver is Red” (2017). Uma produção em grande escala teria três vantagens. Primeiro, seria mais convincente: Aharoni, segundo a equipe, foi a “força motriz”. Segundo, corrigiria a injustiça cometida contra ele. Terceiro, em relação a Eichmann, teria a virtude adicional de ser verdadeira.
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Martin Kramer é historiador na Universidade de Tel Aviv e pesquisador da Cátedra Walter P. Stern no Instituto de Washington para Política do Oriente Próximo. Foi presidente fundador do Shalem College em Jerusalém.




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