Newsletter #7 - Por que trazer o Bund para o cenário atual é uma grande besteira | Por Debbie Lechtman | Revista Tablet Mag
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Atualizado: há 1 dia
Publicado em 28 de maio de 2026
O que a atriz antissionista Hannah Einbinder, a ilustradora Molly Crabapple e a revista The Economist têm em comum? A ideia, que recentemente entrou na moda, de que os judeus estariam em melhor situação se trocassem o sionismo pelo bundismo, uma vertente específica do socialismo europeu pré-1945 que morreu com a Shoá.

De certa forma, o Bund - a União Trabalhista Judaica - parece ter sido feito sob medida para este exato momento político. Ele seria um rótulo que permitiria a autodenominados socialistas se identificar como judeus e ao mesmo tempo compartilhar a oposição de seu grupo mais amplo ao sionismo. Da mesma forma, a ligação do Bund ao iídiche oferece uma alternativa autenticamente judaica ao hebraico, a língua da suposta opressão sionista. Não é de admirar, portanto, que uma série de vozes, desde a atriz judia antissionista Hannah Einbinder, passando pela ilustradora Molly Crabapple, até a revista britânica The Economist, estejam promovendo o bundismo como uma “alternativa judaica” ao sionismo e à sua problemática insistência quanto à necessidade de uma pátria judaica que evita que judeus sejam assassinados em massa.
Há, porém, um pequeno problema com o bundismo: ele deixou de existir como um movimento político significativo entre os judeus em 1945. Entender o porquê disso é entender o quão historicamente vazios são os gestos atuais de um renascimento do bundismo e o destino para o qual provavelmente isso levará. No frio intenso de fevereiro de 1943, um grupo de 17 jovens guerrilheiros judeus escapou do Gueto de Ostrowiec Świętokrzyski, no centro-sul da Polônia, armados com apenas 12 revólveres, comprados clandestinamente e a um custo muito sobrevalorizado no mercado negro. Correndo grande risco de vida, marcharam até um bunker na floresta nos arredores de Kunów, onde se juntaram a outros guerrilheiros. Pouco depois, membros do Armia Krajowa (AK), ou Exército Nacional Polonês, a resistência polonesa sob a ocupação nazista, descobriram sua presença e os pulverizaram com o lançamento de uma única granada.
Os guerrilheiros do Gueto de Ostrowiec Świętokrzyski acabariam se reagrupando, cortando o arame farpado que os aprisionara no verão de 1944 e retornando à floresta. Mas seu primeiro encontro trágico com o Exército Nacional não seria o último. Durante o ano seguinte, o grupo lutou contra os alemães enquanto se esquivava, como o sobrevivente Wolf Fajnsztadt descreveu mais tarde em um dos primeiros testemunhos escritos sobre a Shoá, da perseguição “por grupos do AK e pelos alemães aonde quer que fôssemos”.
Eram originalmente 47 guerrilheiros, mas no final da guerra apenas sete sobreviveram. Entre os assassinados estavam um dos irmãos do meu avô e dois de seus primos.
O que quer que fosse que o Bund pensava — sobre a solidariedade da classe trabalhadora, sobre o doykeit — provou-se falso, na escala mais ampla e consequente imaginável.
Meu avô, ele próprio um sobrevivente do Shoá, nunca me contou essa história. Não tenho certeza se ele sequer a conheceu. Deparei-me com ela por acaso enquanto pesquisava depoimentos sobre a Shoá alguns anos atrás. Mas esse relato coincide com tudo o que ele já me contou sobre a Shoá.
Quando adolescente, me inscrevi em uma viagem de um grupo de jovens judeus para Auschwitz, Majdanek, Treblinka e outros matadouros da Europa Oriental. Meu avô ficou consternado. "Passei anos tentando sair daquele lugar maldito", disse ele com um suspiro de derrota. "E agora você está simplesmente voltando."
Essa ideia — de que o povo judeu foi abandonado para ser incinerado durante a Shoá, até mesmo por aqueles que deveriam ter sido nossos aliados naturais diante da agressão nazista — é um tema recorrente, senão o principal, nos primeiros depoimentos e na historiografia judaica sobre a Shoá. Na grande disputa que durou décadas entre os bundistas, que afirmavam que a solidariedade da classe trabalhadora protegeria os judeus da perseguição perpetrada por seus vizinhos, e os sionistas, que defendiam a emigração em massa da Europa para a Palestina, os sionistas provaram estar certos e os bundistas provaram estar tragicamente equivocados.
Fundado no final do Império Russo, o Bund defendia o socialismo, a integração judaica na Diáspora, a solidariedade da classe trabalhadora e o internacionalismo. Embora ardentemente antiassimilacionista, uma posição que mais tarde ameaçou os governantes soviéticos, o Bund se apresentava como uma alternativa judaica ao sionismo, incorporada em seu conceito de doykeit, ou “aqui”. “Onde vivemos é o nosso país!” era o seu grito de guerra.
Na década de 1920, a recém-formada União Soviética esmagou o Bund, mas sua contraparte polonesa sobreviveu. Na verdade, o movimento prosperou, disparando em popularidade na Polônia pré-guerra, chegando a ter 80% dos votos judaicos em algumas cidades, principalmente Varsóvia, embora uma parcela significativa de sua base fosse atraída pelo grupo não tanto por seu antissionismo, mas por seu compromisso com os direitos dos trabalhadores. Então, chegaram os tanques nazistas.
Todos conhecem o heroísmo da Revolta do Gueto de Varsóvia, mas poucos têm familiaridade com a política interna judaica que a precedeu. Afinal, a história duradoura — e infinitamente inspiradora — é a de que jovens judeus de todas as correntes políticas deixaram de lado suas diferenças e se uniram para formar a Organização Judaica de Combate, para enfrentar os nazistas pela última vez. Como disse Yitzhak Zuckerman, um dos líderes da Organização: “Ninguém duvidava de como provavelmente terminaria… o importante estava na força demonstrada pelos jovens judeus após anos de degradação, para se levantarem contra seus assassinos e determinarem qual morte escolheriam: Treblinka ou Revolta.” Mas, como costuma acontecer nesses casos, a história real não é tão simples assim.
O antissionismo do Bund e o antissionismo atual tem muito pouco em comum. O Bund se opôs ao estabelecimento de um Estado judeu ainda inexistente, enquanto os antissionistas de hoje exigem a dissolução de um Estado existente.
Nos anos que antecederam a Revolta do Gueto de Varsóvia, o Bund hesitou, mesmo quando grupos de jovens sionistas estavam ansiosos por uma revolta. Jornais clandestinos do Bund no gueto promoviam, em vez disso, a ideia de solidariedade da classe trabalhadora entre os judeus e a população polonesa em geral, que também sofria com a ocupação nazista, mas que era poupada das indignidades da vida dentro dos muros do gueto. Quando, semana após semana, mês após mês, a solidariedade não se materializou os bundistas concordaram em se juntar à Organização Judaica de Combate, juntamente com os movimentos juvenis sionistas trabalhistas Hashomer Hatsair, Dror e Poalei Zion. Todos sabemos como essa história terminou.
Nas décadas que antecederam a Segunda Guerra Mundial, o Bund foi ideologicamente guiado por dois princípios: doykeit (autonomia) e solidariedade da classe trabalhadora. Mas, em 1945, o sionismo havia se tornado a posição quase unânime entre os sobreviventes do Shoá, incluindo ex-bundistas, com judeus em campos de pessoas deslocadas defendendo fervorosamente que os britânicos abrissem as portas para a Palestina. Tanto o Relatório Harrison, promovido pelo governo dos EUA, quanto pesquisas posteriores constataram que uma esmagadora maioria de sobreviventes — até 97% — exigia ir para a Palestina e somente para a Palestina, e quando questionados sobre uma segunda opção, milhares escreveram “fornos crematórios”. Judeus deslocados protestavam frequentemente contra os britânicos e não hesitavam em dizer: “Erets Israel para o Povo de Israel!”, “Exigimos a abertura das portas para a Palestina!”
“Eles querem ser evacuados para a Palestina agora, assim como outros grupos nacionais estão sendo repatriados para seus lares”, observou Earl G. Harrison em seu relatório. “Com relação a possíveis locais de reassentamento para aqueles que podem ser apátridas ou que não desejam retornar aos seus lares, a Palestina é definitivamente e preeminentemente a primeira escolha.”
E assim se demonstrou a solidariedade da classe trabalhadora e esse foi o fim da ilusão do doykeit.
O ressurgimento do Bund Trabalhista Judeu, com toda a sua essência, num momento em que a violência antissemita na Dispersão se assemelha aos números da década de 1930, provavelmente atende apenas às necessidades das elites que consideram a existência nacional judaica inconveniente. Não importa que o antissionismo do Bund e o antissionismo atual tenham pouco em comum. O Bund se opôs ao estabelecimento de um Estado judeu soberano ainda inexistente, enquanto os antissionistas de hoje exigem a dissolução ou a destruição completa de um Estado judeu já existente, com 10 milhões de cidadãos que, de alguma forma, devem simplesmente desaparecer no ar — para, risivelmente, evitar serem assassinados em massa por seus vizinhos.
Como acontece com tudo relacionado às mídias sociais, a fetichização do Bund não se limita às mídias sociais. Em abril deste ano, um selo da Penguin Random House publicou "Here Where We Live Is Our Country: The Story of The Jewish Bund" (Aqui Onde Vivemos É Nosso País: A História do Bund Judaico), da autora e ilustradora judia antissionista Molly Crabapple, que detalha a história do Bund em um nível básico, entrelaçada com a história de sua própria família, e recebeu uma resenha elogiosa do The New York Times. Isso seria ótimo — fascinante, até! — exceto pelo fato de que, em inúmeras entrevistas e em suas próprias postagens nas redes sociais, Crabapple apresenta o Bund como o caminho reto não trilhado. "Nós venceremos", escreveu ela, ao lado de uma captura de tela do artigo do The New York Times.
"Nós venceremos”??? Parece que para essas pessoas as tragédias do século XX não existiram.
O vigoroso debate entre sionismo e bundismo no início do século XX estava centrado no futuro judaico num momento em que os judeus lidavam com as deprimentes realidades de sua recém-conquistada emancipação e dos impérios que se fragmentavam em estados-nação independentes. Foi a realidade da Shoá — e não a argumentação ideológica intra-judaica — que finalmente resolveu esse debate. E a realidade não favoreceu o Bund.
Nos campos de refugiados, os bundistas sobreviventes, que anteriormente condenaram a emigração judaica, particularmente para a Palestina, pediram aos britânicos que revertessem suas políticas de imigração antissemitas para a Terra Santa. Nas palavras do escritor e jornalista judeu antissionista de longa data Isaac Deutscher: “Há muito tempo abandonei meu antissionismo”, disse ele em 1954, “que se baseava na confiança no movimento operário europeu ou, mais amplamente, na confiança na sociedade e civilização europeias… Se, em vez de argumentar contra o sionismo nas décadas de 1920 e 1930, eu tivesse incentivado os judeus europeus a irem para a Palestina, eu poderia ter ajudado a salvar algumas das vidas que acabaram extintas nas câmaras de gás de Hitler. Para os remanescentes do judaísmo europeu, o Estado judeu tornou-se uma necessidade histórica. É também uma realidade viva.”
Uma realidade viva. De fato, após a Shoá, alguns dos remanescentes do Bund se restabeleceram no Estado de Israel.
O vigoroso debate entre sionismo e bundismo no início do século XX estava centrado no futuro judaico. Foi a Shoá que finalmente resolveu esse debate — e não a favor do Bund.
O que, então, os neo-bundistas de hoje, desprovidos de qualquer compreensão histórica contextual, estão tentando conseguir? Uma reversão dessa realidade? E como isso se daria na prática? Sete milhões de israelenses fariam as malas e embarcariam para a Polônia, Alemanha, Iraque, Rússia, Iêmen e outros países semelhantes? O que aconteceria com eles lá? Israel se transformaria na Palestina, e seus cidadãos judeus renunciariam a seus direitos ancestrais e à sociedade próspera que construíram, cruzando os dedos e esperando pelo melhor, em meio a uma população que vê abertamente sua própria presença no que consideram terra islâmica como uma afronta a Deus? Que forma de justiça qualquer um desses gestos insanos alcançaria?
Suponho que, para pessoas que vivem em um mundo de abstração ideológica, protegidas por sua própria riqueza e privilégio, a logística da vida de outra pessoa não importa muito, contanto que o inconveniente para suas vidas seja eliminado. E veja bem, eu entendo. Quando sua compreensão política de sua identidade judaica está enraizada em fundamentos históricos tão frágeis, você se agarra a qualquer coisa que passe pela frente.
"Uma das muitas coisas que [os sionistas] fizeram foi tentar colonizar toda a história judaica", afirmou Crabapple em uma entrevista ao New Internationalist, o que resume bem a compreensão infantil e limitada da história que a ilustradora possui. Como argumenta a neo-bundista, a comunidade judaica se voltou para o sionismo não por experiência própria, mas por trauma. Em outras palavras, a Shoá traumatizou tanto a comunidade judaica mundial que obscureceu nosso julgamento moral coletivo e nos transformou em opressores, nazistas, colonizadores, genocidas ou qualquer outro rótulo calunioso que esteja em voga no momento. Isso é, obviamente, um exemplo de inversão do Shoá, que, por sua vez, é uma forma de negação velada do Shoá.
O que os neo-bundistas não conseguem compreender é que a adesão universal dos judeus ao sionismo após a Segunda Guerra Mundial não surgiu de um lapso moral induzido pelo Shoá — se alguém deve contemplar lapsos morais, são os perpetradores da Shoá, e não suas vítimas — mas de conclusões amargas extraídas de realidades vividas.
Isso não significa, de forma alguma, que o Bund tenha responsabilidade pela Shoá. Essa responsabilidade recai somente sobre os nazistas e seus cúmplices. Mas tudo o que o Bund pensava — sobre organização política, sobre solidariedade da classe trabalhadora, sobre o doykeit — provou-se falso, na escala mais ampla e consequente imaginável. A solidariedade só funciona quando é recíproca, e ela não era. O sentimento de pertencimento só tem peso real quando se consegue encontrar um lugar entre os vizinhos, e os judeus não o encontraram.
Suponho que, para pessoas que vivem em um mundo de abstração ideológica, protegidas por sua própria riqueza e privilégio, a logística da vida de outra pessoa não importa muito, contanto que o inconveniente para suas vidas seja eliminado.
Quanto aos meus tios-avôs, todos os seis se tornaram partidários, a maioria pertencente a movimentos juvenis sionistas, embora haja rumores de que um deles tenha sido bundista. Ao final da guerra, cinco deles haviam sido assassinados, e seus restos mortais apodreceram nas florestas da Polônia, tanto os sionistas quanto os bundistas. Apenas meu tio-avô Szulim sobreviveu para contar a história. Quando se reencontrou com meu avô, que era apenas uma criança na época, ele já era um sionista fervoroso, enfrentando postos de controle do Exército Vermelho, os Alpes austríacos e um campo de refugiados na Itália, na remota possibilidade de construir um lar na Terra Prometida. Ele nunca conseguiu, mas permaneceu sionista até o fim de sua vida.
Quem somos nós para questionar sua sabedoria? Mesmo hoje, sobreviventes do Shoá antissionistas são uma exceção, usados como símbolo por antissemitas. Não guardo nenhuma animosidade contra o Bund, que fez o que pôde e o que achou melhor com as informações que tinha. Qualquer pessoa pode ser perdoada por pensar que a ideologia do Bund teria sucesso nas décadas de 1920, 1930 e até mesmo no início da década de 1940. Mas continuar a defendê-la 80 anos depois, com o enorme privilégio da retrospectiva, que os bundistas originais não tinham, e com a conquista concreta de um Estado judeu onde vive hoje a maioria dos judeus do mundo, é mais do que ignorância histórica e praticamente absurdo. É indefensável.
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Debbie Lechtman é uma autora, ativista e criadora de conteúdo judaico, mais conhecida por administrar a conta educacional judaica do Instagram @rootsmetals. Seu primeiro livro de não ficção judaica será lançado em 2027.




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