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Newsletter: Sionismo para Todos

  • Foto do escritor: Alana Newhouse
    Alana Newhouse
  • 26 de mar.
  • 29 min de leitura

O real motivo pelo qual nos hostilizamos a respeito de Israel



Como as pessoas mudam?


Algumas mudanças envolvem coisas que nos acontecem e não é isto que me interessa neste texto. A minha curiosidade aqui é sobre o que acontece, tanto individualmente como em sociedade, quando as pessoas se deparam com uma realidade infeliz — seja lá como ela tenha surgido — e decidem mudar o que parece, pelo menos naquele momento, ser o seu destino.


Em seu romance de 2015, Submissão, Michel Houellebecq esboça o retrato de uma França num futuro próximo, na qual um partido islâmico se alia aos socialistas para tomar o poder. A história acompanha um professor de literatura que se vê diante da decisão de se converter ao islamismo para progredir na carreira, enquanto o cenário social e político do país é transformado pelas leis da sharia. Sua própria desilusão é intensificada pela decisão de sua namorada judia de escapar da islamização da França mudando-se para Israel. Ele quase a acompanha, mas acaba desistindo, proferindo a frase do livro que ficou famosa: "Não existe Israel para mim".


Lembro de ter me chocado com esse sentimento na primeira vez que li. Eu conseguia entender por que um acadêmico não judeu descontente hesitaria em fazer aliá, mas na medida em que a representação ficcional de Houellebecq incluía o comentário sobre o mundo real, a conclusão me pareceu errada. Claramente existe, ou poderia existir, um Israel para essa pessoa. Seria a França, se ela conseguisse sair do rumo que está seguindo.


Dificilmente isso seria impossível. Na verdade, ao longo da história, os seres humanos mudaram a forma como se organizavam ou se concebiam para aproveitar novas oportunidades ou para enfrentar novos desafios ou ameaças. Esses momentos de inflexão são frequentemente provocados por avanços tecnológicos, desde a invenção da roda, passando pela construção de estradas, pela invenção da imprensa, até invenções que encurtam distâncias no tempo e no espaço, como o telégrafo e o rádio, que, por sua vez, provocam grandes mudanças na forma como os seres humanos se veem e imaginam sua relação com uma grande comunidade — e que também introduzem novos perigos.


Estamos em um desses momentos.


Os robôs estão chegando. Existem úteros artificiais. Estamos editando geneticamente doenças que aterrorizaram a humanidade ao longo da história, indo para Marte, travando guerras com drones, revitalizando áreas da natureza e ressuscitando animais extintos (ou algo assim).


Esses avanços são bons ou ruins? Quem sabe! Essa é a questão com as novas invenções; seus efeitos são — sempre, inteiramente — ditados por como os humanos interagem com eles.


No nosso caso, as alterações que estão ocorrendo na forma da vida humana já superam em muito as provocadas por qualquer outra era transformadora. As tecnologias digitais que estão surgindo hoje são incrivelmente poderosas. Tal como cavalos descontrolados, poderão ser usadas, para prazer e lucro por humanos seguros, habilidosos e com senso de propósito. Mas também precisarão de humanos fracos para funcionar. ("Esta definitivamente não é uma tecnologia na qual todos ganham", nas palavras de Alex Karp, da Palantir.) Conscientes disso ou não, todos nós estamos diante de um futuro em que algumas pessoas desfrutarão da possibilidade de vidas humanas seguras, ambiciosas e belas, enquanto outras se tornarão combustível para robôs e comida para zumbis. É assustador e confuso, e a cada dia fica mais.


Nesse exato momento caótico, repleto de perguntas tão incríveis que chegam a ser espirituais — em que ponto uma pessoa geneticamente modificada se torna equivalente a uma máquina? Minerais são animados?! — o mundo entrou repentinamente em um vórtice onde, em vez de debater esses inúmeros tópicos fenomenalmente interessantes e desafiadores, tudo o que se consegue falar é sobre… Sionismo.


O Sionismo, dizem os críticos, é uma ideologia tóxica. Ele sustenta um estado étnico criminoso. Incita e justifica o genocídio. Você tem sentimentos positivos ou neutros em relação a este pequeno país do tamanho de Nova Jersey, a milhares de quilômetros de distância? Você não tem sentimento algum em relação a ele? Isso só demonstra o quão venal você é, ou o quão ignorante sobre o mundo. As ações de Israel, dentre as de muitos outros países que afetam seus impostos, são as únicas que constam em seu registro moral pessoal. Essa pequena nação, movida por uma doutrina perigosa, controla o império mais poderoso da história — uma nação com um PIB 50 vezes maior, uma população 34 vezes maior e um orçamento de defesa 25 vezes maior. E é por isso que você, por exemplo, não tem acesso à saúde.


Tendo cumprido sua promessa para com os judeus, o Sionismo é agora uma tecnologia para a renovação nacional que poderia, em tese, ser usada por qualquer grupo.

Respondendo a isto, judeus e seus aliados tentam, de forma emotiva, refutar essa insanidade. Alegam que os judeus são as vítimas mais merecedoras da história. O Sionismo não é uma ameaça! É outrossim um movimento que defende o direito do povo judeu à autodeterminação e ao estabelecimento de um Estado em sua terra ancestral — um privilégio desfrutado por todos os outros povos no Ocidente. Quem pode discordar disso? Pessoas sensíveis estão perplexas, até mesmo irritadas, pelo simples fato de tal debate existir.


O que poucos de ambos os lados percebem é que quase todos os demais povos no Ocidente estão perdendo, ou abrindo mão, de seus próprios privilégios à autodeterminação — o que torna possível imaginar que Israel esteja, de alguma forma, escapando de algo que mais ninguém consegue. Se há uma verdade incontestável da política atual é que, especialmente para os maus atores, toda acusação é uma confissão, o que fez surgir um corolário: expressões de repulsa são frequentemente evidências de inveja.


Daqui a alguns anos, ficará óbvio por que, neste momento específico da história da humanidade, enquanto enfrentávamos tecnologias avançadas e ideologias políticas destinadas a pavimentar o caminho para seu domínio sobre os humanos, o que emergiu — o que tinha que emergir — foi um intenso debate global sobre, entre todas as coisas, o Sionismo. Israel não é mais uma exceção no panteão das sociedades e povos livres; ele é um modelo em prol da defesa e do florescimento da humanidade no próximo século.



A forma mais primitiva de organização humana consistia em pequenos grupos nômades que compartilhavam recursos, com estruturas igualitárias simples. Esses grupos evoluíram para tribos, que eram grupos maiores e sedentários, ligados por laços de parentesco, com lideranças mais complexas, mas ainda sem poder centralizado. Então, ocorreu um desenvolvimento verdadeiramente radical: a domesticação de plantas e animais eliminou a necessidade de deslocamento constante em busca de sustento. Mas os assentamentos permanentes também criaram a necessidade de defesa e alocação de recursos — o que deu origem às primeiras aldeias e cidades.


O enraizamento das populações levou a mudanças tão drásticas que é quase difícil concebê-las — porque ofereceu às pessoas, pela primeira vez, um lugar tangível em torno do qual organizar sua existência. Conexões tribais, costumes, idioma, música e assim por diante passaram a estar ligados à defesa e ao enriquecimento de um local onde os filhos e compatriotas pudessem estar seguros e prosperar. Quando as sociedades eram bem-sucedidas, era porque os seres humanos e suas diferenças pessoais interagiam com as singularidades naturais de seus ambientes para criar algo específico, reconhecidamente distinto. Algo com o qual as pessoas se sentiam conectadas, que as inspirava e que elas queriam proteger.


Com o tempo, grandes Estados europeus como a Grã-Bretanha, a França e a Rússia começaram a se consolidar e, ao longo do tempo, se desenvolveram gradualmente através de um longo processo histórico, envolvendo conquistas internas e guerras civis e religiosas. Em meados do século XVII, a Paz de Vestfália deu à Europa um mapa concreto, codificando alguns territórios como católicos e outros como protestantes. Nos séculos seguintes, a ordem europeia de Estados — cada um correspondendo a uma identificação religiosa específica e a um idioma dominante — expandiu-se por meio de ondas de conquistas e tratados. Após a Primeira Guerra Mundial, a fragmentação dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Otomano estabeleceu uma infinidade de novos estados nos territórios desses antigos impérios, incluindo Hungria, Checoslováquia, Polônia, Romênia e os países bálticos. Poucos deles existiam antes como nações distintas, pelo menos não em sua forma moderna.


Embora o termo ainda não tivesse sido cunhado, todos esses eram etno-estados, palavra derivada do grego etnos — definida de diversas maneiras como “nação”, “tribo”, “povo” ou “classe”. Desde então, o termo foi deturpado para significar um governo onde a cidadania e a residência são restritas a membros de uma etnia específica ou pessoas que pertencem à mesma linhagem sanguínea. Mas a palavra etnos, na verdade, denota apenas qualquer grupo de seres humanos que consideram compartilhar um conjunto potencialmente diverso de características culturais que, em última análise, os distingue de outros grupos.


Os povos ainda não haviam sido inventadas no século XIX. O que emergiu naquele momento, e o que influenciou drasticamente a criação dos países, foi a estrutura conceitual de “povos” ou “identidades coletivas”. Essa ideia derivou da filosofia romântica alemã do século XIX e, em particular, da obra de Johann Gottfried Herder. Ao traçar o desenvolvimento da civilização humana, Herder observou que a língua, a literatura, as tradições e a história compartilhadas forjam um espírito único, ou Volksgeist, que, segundo ele, deveria servir de base para os Estados-nação.


Quando Herder procurou o exemplo de um grupo de pessoas cujos atributos — língua comum, história, religião — ele pudesse usar como base para sua teoria, escolheu os antigos judeus, que, segundo ele, eram o exemplo supremo da expressão folclórica autêntica de um povo. Se os judeus modernos tinham um problema, continuou Herder, era o de terem sido expulsos de sua terra, transformando-os em uma “nação dentro de outras nações”. Ainda assim, isso só aumentava seu mistério: seu conjunto específico de características permitiu que mantivessem uma cultura única — integrando-se e, ao mesmo tempo, mantendo-se à parte — e se adaptassem com sucesso às sucessivas ondas da modernidade, do Império Romano aos grandes impérios religiosos da Igreja Católica e de vários califados islâmicos, aos impérios multi-étnicos dos Habsburgos e dos Otomanos, até a ordem estatal da Vestfália, nascida na Europa do século XVII.


Ao contrário, por exemplo, dos búlgaros ou eslovenos, que tiveram de recorrer a fragmentos de filologia e história para provar que existiram como povos distintos, os judeus comprovadamente existiam como nação desde os primórdios do Ocidente. A singularidade judaica era um fato conhecido em todo o mundo; sua língua, costumes e vínculos geográficos eram atestados por uma vasta gama de fontes gregas e romanas antigas, além dos registros deixados pelos assírios, moavitas e outros reinos desaparecidos.


Mas havia outro motivo pelo qual Herder se sentiu atraído pelos judeus. Ele acreditava em um “método genético” da história, que ditava que a cultura de um povo está enraizada em sua origem, de forma semelhante a como uma planta cresce a partir de uma semente. No entanto, em sua concepção, a “linhagem” não é simplesmente biológica; é uma unidade espiritual e cultural formada ao longo do tempo, frequentemente expressa por meio da linguagem, do folclore e da poesia. Embora os judeus, em certa medida, tenham preservado suas origens e seu funcionamento como uma tribo — ou uma união de 12 tribos —, sua história de origem sempre foi, desde o início, excepcionalmente inclusiva. Evidências modernas de DNA sugerem que apenas a linhagem paterna dos judeus ashquenazitas remonta ao Oriente Médio, indicando um grupo de homens judeus que migraram para o Império Romano e, em seguida, casaram-se com mulheres da população nativa europeia. Ao fazer isso, eles não careciam de precedentes na tradição judaica, apesar do judaísmo ser transmitido pela linhagem materna: as matriarcas do povo judeu eram todas convertidas de outras nações, assim como a fundadora da linhagem real davídica, Rut.


Ainda mais atrás, o Livro do Êxodo deixa claro que os escravos judeus que Moisés conduziu para fora do Egito (ele próprio uma pessoa de aparente origem real egípcia) foram acompanhados por um erev rav, ou “multidão mista” — um grande número de pessoas sem qualquer ligação genética com Abraão, Isaac e Jacó, mas que, mesmo assim, deixaram o Egito com Moisés. Embora o termo erev rav sobreviva na tradição judaica como um termo pejorativo que significa “ralé”, também é evidente que o erev rav era um componente fundador da nação israelita antes mesmo de ela chegar a Israel. Não há mais nenhuma menção nas escrituras sobre a origem de qualquer pessoa entre os erev rav.


Se você olhar com atenção, poderá perceber como essa complexidade se infiltrou no desenvolvimento do conceito de "identidade coletiva" de Herder, aplicado a outros. A única verdade universal entre culturas, ou povos, como ele os definiu, é que eles são, por definição, diferentes uns dos outros.


Vou mostrar como, através de exemplos contemporâneos. Os Estados-nação do Japão e da França podem ser descritos como representantes de etnias, mas isso não significa que as definições de cada etnia sejam as mesmas. Ser japonês, ou "japonesidade", está fortemente ligado à língua japonesa e à ascendência. É também uma complexa teia de costumes e atitudes em relação a tudo, da família à comida. No entanto, uma pessoa de ascendência japonesa que não fala japonês é reconhecida pela maioria — senão por todos os japoneses — como japonesa, independentemente de ter sido criada no Japão ou no Peru. A questão da religião, que muitas vezes é fundamental para a identidade nacional na Europa, dificilmente afeta a avaliação que um japonês faz da "japonesidade" de outra pessoa. Por outro lado, um falante fluente de japonês da Inglaterra, com pele branca, cabelo loiro e olhos azuis, dificilmente seria reconhecido pelos japoneses como japonês, mesmo que frequentasse regularmente um templo xintoísta. Meu marido, que é um grande fã de tudo o que é japonês, morou em Tóquio. Quando lhe perguntei como as pessoas de lá reagiam quando ele falava com elas em japonês, ele disse: "como um cachorro falante".


Agora imagine as mesmas questões com relação a um francês. Alguém que cresceu no Peru e não fala francês seria reconhecido como francês por outros franceses? A resposta é não, independentemente de quanto tempo seus ancestrais possam ter vivido em território francês. E se essa pessoa falasse francês fluentemente? Faça essa pergunta a franco-canadenses e a resposta também será claramente não. Portanto, Para os franceses o sangue é menos importante do que o idioma e a geografia política atual na determinação da identidade francesa.


O que estou enfatizando é que você pode pensar em etnia ou cultura como uma enorme mesa de mixagem onde território, raça, idioma, religião, credo e outras características definidoras atuam como as diferentes partituras dos naipes de instrumentos de uma orquestra — que podem ser realçadas ou atenuadas na mixagem. Algumas culturas podem preferir os contrabaixos ou dobrar a percussão. Outras podem evitar os metais completamente. O som e as texturas resultantes em cada caso serão diferentes. Mas o que define se o resultado é ou não é uma música é se existe uma lógica que seja discernível tanto para os participantes quanto para um ouvinte externo com um razoável conhecimento de música. Em outras palavras, o que era importante para uma nação nunca foi uma única característica, mas sim a combinação que criava uma etnia singular — uma que fosse reconhecível tanto para seus próprios cidadãos quanto para os outros.


Até hoje, dois tipos de lugares na Terra podem plausivelmente alegar não serem etno-estados. Primeiro, os estados pós-coloniais estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial na África e no Oriente Médio, seguindo linhas traçadas por cartógrafos coloniais precisamente para manter as novas possessões divididas e mais fáceis de governar. Nesses casos, o fato de não terem sido construídos como etno-estados é geralmente citado como uma razão para sua subsequente fragilidade e fracasso.


O segundo caso de países que não se qualificavam como etno-estados, pelo menos não em seu início, são as nações de "colonos" formadas pela imigração em larga escala da Europa. Os países mais bem-sucedidos foram as colônias ultramarinas do Império Britânico. Outros casos foram as colônias latino-americanas de nações europeias como Espanha e Portugal. Em nenhum desses casos os colonizadores tinham qualquer vínculo linguístico, religioso, mitológico ou ancestral com as terras que colonizaram, nem o apoio de instituições ou tribunais internacionais. Eles simplesmente se estabeleceram ali e tomaram posse da terra em nome de seu rei ou rainha, cujo governo supostamente se baseava em autoridade divina.


O mais incomum destes casos foi o futuro Estados Unidos, um país tão diferente de qualquer outro que é difícil chamá-lo de "o mais bem-sucedido" ou realmente "o maior" em qualquer coisa — já que muitas das coisas que ele viria a realizar foram singulares. Em grande parte, isso se deve ao fato de que, desde a sua fundação, a América foi movida por duas características culturais incomuns e surpreendentemente duradouras: o pacto e o capital.


Se você me conhece apenas um pouco, há uma boa chance de eu já ter tentado, em algum dia de Ação de Graças [Thanksgiving], te convencer a assistir à série da HBO "Saints & Strangers". O motivo pelo qual eu a adoro é que ela centra a história das origens da nação norte americana na divisão entre os primeiros colonizadores: os devotos peregrinos protestantes, movidos pela crença de que estavam cumprindo um pacto para fundar uma nova nação excepcional, abençoada por Deus, e os desbravadores seculares em busca de oportunidades econômicas transformadoras que inexistentes para pessoas comuns em nenhum outro lugar.


Na verdade, essas duas motivações, ambas presentes desde o nascimento do país, mostraram-se tão fortes que compensaram a falta de outros laços culturais nos Estados Unidos e permitiram que o país gerasse uma etnia própria e distinta. Isso foi especialmente importante após a revolução, quando o país adotou uma abordagem de identidade nacional que conscientemente minimizava os laços sanguíneos ou geográficos em favor de critérios que refletissem um senso de propósito comum, nos quais os novos imigrantes podiam ser rapidamente integrados.


Países cujas populações são uma mistura de pessoas pertencentes a múltiplas etnias podem, por si só, constituir ou se tornar uma etnia? Certamente. Ter a mesma cor de pele ou características físicas é um elemento de identidade coletiva importante para os japoneses, mas não, por exemplo, para os israelenses — cuja população inclui imigrantes do Iêmen, Egito, Etiópia, França, Alemanha, Rússia, Polônia, Brasil e México. E, claro, os Estados Unidos uniram pessoas de diferentes raças, línguas, religiões e muito mais, exigindo lealdade a dois propósitos comuns que se mostraram fortes e singulares o suficiente para se tornarem laços culturais eficazes.


Durante séculos, independentemente do tipo específico de música que produziam, os valores das nações — tanto para os indivíduos quanto para os coletivos — residiam em sua singularidade. A soberania e a cidadania eram entendidas como privilégios arduamente conquistados e facilmente perdidos. Abrir mão de qualquer um deles só aconteceria — pelo menos até recentemente — na mira de uma arma.

É difícil processar o esforço humano, o tempo, o sangue, a criatividade e o capital de todos os tipos que foram investidos no desenvolvimento da identidade das nações ocidentais. Cada uma era uma obra coletiva de estética e engenharia humana, tão impressionante quanto qualquer estrutura física construída pelos grandes impérios do passado. Agora, em 2026, elas estão vivenciando crises de identidade maciças e, em alguns casos, devastadoras — como se todas tivessem sido atingidas por alguma força da natureza, como uma era glacial ou o impacto de um cometa.


Na verdade, foi mais como um contágio social — provocado pelo homem, irrefreável e enlouquecedor de se presenciar, caso se compreendesse o que se estava vendo. Começou há 80 anos, na sequência do Holocausto. “À medida que os esforços de reconstrução começavam, surgiu, juntamente com eles, um acerto de contas ideológico e filosófico”, explica a escritora sueca Annika Hernroth-Rothstein, que resumiu a narrativa de forma sucinta em um texto recente. Em vez de aceitar “que pessoas aparentemente normais, em circunstâncias extraordinárias, possam cometer atos terríveis”, ela escreve:


A Europa decidiu que o vilão era a própria ideologia. A ideologia, construída sobre crenças religiosas e identidades definidas, levou à formação de Estados-nação, fronteiras e divisões entre lugares, pessoas e crenças. Essa, segundo a ideia do pós-guerra, era a causa dos conflitos. Pensadores como Hannah Arendt, Jean-Paul Sartre, Albert Einstein, Jacques Derrida e Michel Foucault descreveram o nacionalismo e o Estado-nação como perigos morais e políticos, defendendo o humanismo global e questionando a própria ideia de basear uma identidade compartilhada em crenças religiosas e sentimentos nacionalistas. … E assim, um continente devastado pela guerra, recém-saído de um conflito global sobre fronteiras e identidade, decidiu abolir fronteiras e identidade por completo, presumindo que esse seria o caminho para uma paz duradoura.


Spoiler alert: Não era. Em vez de imunizar a Europa contra novos conflitos, a ideologia pós-nacionalista que se desenvolveu como resposta à Segunda Guerra Mundial acabou por desestabilizar a Europa e todo o Ocidente, possivelmente de formas mais duradouras.


Com o incentivo autoritário da União Soviética, a fabricada comunidade global passou a tratar todos os nacionalismos ocidentais, e especialmente o nacionalismo americano, como criminosos, enquanto os nacionalismos dos estados pós-coloniais eram considerados virtuosos. Essas regras ilógicas foram codificadas na suposta divisão moral entre opressores, para quem tudo era proibido, e oprimidos, para quem tudo era permitido — uma ideologia que então contaminou organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, que passaram a ser usadas por países totalitários e coletivistas para conter o poder dos países ocidentais (poder esse que, ironicamente, haviam adquirido justamente por não serem totalitários ou coletivistas).


Essa tensão poderia ter sido administrável se não fosse pelo que aconteceu em seguida. Após o fim da Guerra Fria, a ideologia antinacionalista recebeu outro forte impulso, mas na direção oposta: as forças do capitalismo global e as novas tecnologias emergentes que buscavam eliminar as diferenças nacionais para otimizar suas próprias operações.


Todas as culturas e religiões tinham que ser consideradas funcionalmente iguais porque eram vistas dessa forma pelas tecnologias projetadas para acesso universal; para que todos usassem a mesma internet os sistemas tinham que ser construídos com a premissa de homogeneidade. As pessoas foram transformadas em unidades funcionais equivalentes em um sistema global que ignorava as barreiras anteriormente erguidas por governos, mídia, idiomas — ou seja, as partes da vida que compunham culturas diferentes umas das outras. Em vez disso, dizia-se que um novo mundo sem fronteiras estava surgindo, onde as distinções seriam apagadas e bens e pessoas se moveriam pelo mundo à vontade, tornando os mercados e as ideias mais poderosos. Com maior circulação de capital, viriam maiores recompensas, que inevitavelmente seriam compartilhadas por toda a humanidade.


Esse equilíbrio entre particularismo cultural, pragmatismo rigoroso e quase insondável idealismo inspirador? Isso é o Sionismo.

Políticos de todo o Ocidente, tanto da esquerda quanto da direita, começaram a se ver como membros de uma “comunidade global” transnacional mais ampla, que havia transcendido as realidades brutais da identidade nacional para questões mais abrangentes, como a composição de uma monocultura global moldada pelos mercados livres e pelo direito internacional, com exceções especiais para ajudar os “oprimidos” a se integrarem ao sistema global.


Os países ocidentais se esforçaram para se enxergarem em termos estritamente legalistas, adotando identidades nacionais com o mínimo de amarras possível. Quanto menos vinculativa fosse sua identidade, mais aberta você poderia ser a pessoas, ideias e produtos do resto do mundo. Pegue um ticket de ingresso e você está dentro. (Ou simplesmente venha mesmo sem o ingresso.)


A Grã-Bretanha adotou uma versão desse ideal sob o comando do ex-primeiro-ministro Boris Johnson e seus antecessores conservadores, assim como os Estados Unidos com a política de “fronteiras abertas” sob o presidente Joe Biden. A França adotou uma política semelhante, embora menos abertamente entusiástica, em relação aos habitantes de suas antigas possessões coloniais na África. A Alemanha fez o mesmo, abrindo suas portas para imigrantes do Afeganistão e do Oriente Médio sob a ex-chanceler Angela Merkel. Muitos dos países nórdicos seguiram essa tendência global, particularmente a Suécia. Em todos os casos, o impulso de acolher milhões de imigrantes de culturas diversas foi acentuado por uma combinação de impulsos humanitários e econômicos libertários. Estes incluíam o desejo corporativo por mão de obra barata, dissociado de qualquer avaliação do impacto da imigração em massa sobre as culturas nacionais e as definições anteriores de cidadania — que agora eram consideradas de importância cada vez menor.


País por país, as elites ficaram chocadas ao descobrir o quão impopulares eram essas políticas universalistas, que tinham apoio bipartidário. Como se constatou, a maioria dos cidadãos dos países ocidentais não queria habitar um mundo pós-territorial e pós-histórico. Os britânicos ficaram furiosos ao descobrir que gangues de estupradores muçulmanos paquistaneses estavam molestando seus filhos sob a proteção de fato da lei; os suecos ficaram horrorizados ao descobrir que grandes áreas de suas principais cidades haviam se tornado zonas proibidas dominadas por gangues estrangeiras; os franceses ficaram revoltados com a rejeição da laicidade pelos recém-chegados. Os esquerdistas e seus novos aliados islamistas e terceiro mundistas lutavam para explicar por que, digamos, o nacionalismo francês era inerentemente errado, mas o nacionalismo palestino era certo — ou por que era melhor que as mercadorias fossem fabricadas na China por fábricas estatais usando trabalho escravo do que impor tarifas sobre produtos estrangeiros. Os americanos, irritados com os baixos salários e com a sensação de deslocamento cultural, elegeram Donald Trump duas vezes, e os alemães abraçaram movimentos de extrema-direita que haviam sido excluídos da política do país desde a ascensão de Adolf Hitler. Cerca de 70 anos após a ideologia pós-nacional ter se consolidado, ela estava sendo rejeitada em massa pelos eleitores de ambos os lados do Atlântico.


Os cidadãos comuns das nações ocidentais têm razão em sentir que foram vítimas de uma manobra enganosa, perpetrada por vários atores, sejam eles ignorantes ou mal-intencionados ou ambos, agora rotineiramente atribuída a uma conspiração judaica. Mas o truque aplicado não tinha nada a ver com os judeus. Nem sequer era a intenção que fosse um truque.


Em vez disso, o que aconteceu foi a consequência da incapacidade das elites ocidentais de compreenderem que a nação, como a roda, é uma daquelas invenções cuja utilidade para os humanos só aumenta com o tempo. Como resultado, elas também não conseguiram entender o que viver em uma sociedade global significa para as pessoas comuns, para quem a cidadania representa sua forma mais valiosa de capital pessoal e familiar — símbolos de pertencimento pelos quais seus pais e avós sofreram, lutaram e morreram, e que lhes proporcionaram acesso, arduamente conquistado, a oportunidades, empregos e uma rede de proteção social que agora se desfazia sob a pressão da imigração em massa.


Respondendo a isto, pessoas tanto da esquerda quanto da direita buscaram conforto no passado. Os esquerdistas na Europa insistiram em uma adesão ainda maior ao culto pós-colonial dos "oprimidos" — em nome da justiça e sob a alegação de que a alternativa seria ainda pior. Além disso, como estudantes universitários vêm dizendo há gerações, o verdadeiro comunismo nunca foi realmente experimentado.


Por sua vez, os conservadores proclamaram seu desejo de retornar aos fundamentos que haviam sido rejeitados como puro fanatismo desde o fim da Segunda Guerra Mundial — desde a aceitação aberta do racismo e do antissemitismo e os apelos à autoridade das Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Oriental (e, às vezes, de ambas em conjunto), até o surgimento do conservadorismo nacional, personificado por líderes como Viktor Orbán, Alice Weidel e Giorgia Meloni. Essas pessoas foram rotuladas como "extrema-direita", o que abraçaram como um distintivo de honra, imaginando que o significado disso é que pessoas delicadas não conseguem lidar com seus fundamentais apelos ao nacionalismo.


Isso foi verdade para alguns eleitores. Mas para muitos outros — independentemente de conseguirem ou não expressar isso claramente — não se tratava de serem fracos demais para o patriotismo exacerbado; tratava-se de saberem que não funcionaria. Frustração e raiva são instrumentos eficazes se o objetivo é inspirar as pessoas a demolir tudo. Mas, no caso da Europa, a demolição já havia ocorrido. Sair dos escombros, e mais ainda construir algo novo, exige mudança para um idealismo, uma energia voltada para o futuro, que todos esses líderes pareciam não ter.



Nos Estados Unidos, a situação não era melhor. Na verdade, era pior, por sermos o país mais rico e poderoso do planeta. Isso começou com o uso que George W. Bush fez de nossas forças armadas em um esquema prolongado para enriquecer lobistas e empresas de defesa. Por mais desastrosos que tenham sido por si só os resultados da Guerra Global contra o Terrorismo, eles adquiriram potência metastática ao se tornarem a desculpa para a tentativa de Barack Obama de minar o poder americano, tanto no exterior quanto em casa.


De forma mais dramática, os anos de Obama testemunharam ataques direcionados a romper os dois laços fundamentais da identidade americana: o capitalismo e o pacto social. Do Obamacare aos contratos bilionários com empresas de tecnologia, o governo usou consistentemente seu poder para favorecer grandes corporações. O governo usou a "justiça social" para transformar o Partido Democrata (e, posteriormente, todo o governo federal) em uma máquina de lavagem de dinheiro para corporações e ONGs bilionárias — e foi tão eficaz em quebrar a confiança das pessoas no sistema capitalista que é difícil não enxergar isso como intencional. Dois anos após o início de seu mandato, surgiu o movimento Occupy Wall Street, e a popularidade do socialismo vem crescendo ano após ano desde então.


Obama também se esforçou pessoalmente para romper o vínculo dos Estados Unidos com seu outro pilar fundamental, afirmando que acreditava no excepcionalismo americano, “assim como suspeito que os britânicos acreditam no excepcionalismo britânico e os gregos no excepcionalismo grego”. Tal com se o excepcionalismo fosse uma mera questão de gostar do próprio país. Na verdade, como Obama certamente sabia, o sentimento americano de ser uma exceção era um elemento singular da identidade da nação, concebido não para o chauvinismo, mas para unir partes díspares e divergentes.


À medida que as duas características singulares da América foram corroídas, a fragilidade da identidade cultural do país ficou exposta, levando a uma série de debates lamentáveis ​​(e contínuos) sobre se a América poderia ser definida como especificamente branca, cristã, religiosa ou qualquer outra coisa. Ao repudiarmos nossos papéis como santos ou desbravadores, nos tornamos fantasmas.


O termo "tradicional" também se tornou relevante aqui. JD Vance emergiu como um porta-estandarte americano do conservadorismo nacional com um toque de nostalgia, que ele então levou para a Casa Branca, espalhando uma aura sombria pelo caminho. Gradativamente, o espaço da mídia independente de direita — que surgiu durante a Covid como uma resposta às falhas da mídia tradicional de esquerda americana — descobriu o que a imprensa tradicional já sabia há muito tempo: o sucesso financeiro em plataformas digitais vem de públicos amplos e superficiais, não de públicos restritos e profundos. Para atrair o público internacionalista quase todas as chamadas vozes dissidentes se tornaram anti-americanas.


Na esquerda tradicional, o movimento "pessoas são apenas alimento para zumbis" ganhou força. O interminável show de Bernie Sanders em Las Vegas passou a contar com figuras secundárias como Alexandria Ocasio-Cortez e Zohran Mamdani, atraindo audiências cada vez maiores — quase nenhuma delas inteligente o suficiente para perceber que as soluções oferecidas eram literalmente do século XIX. (Sindicatos de operários? Compostos por quem, exatamente? Por robôs?)


Felizmente para a esquerda, seus adeptos eram numerosos o suficiente e estavam suficientemente entrelaçados com o Vale do Silício para que alguém, em algum lugar, finalmente percebesse que seria bom ao menos disfarçar suas aspirações anti-americanas e internacionalistas com uma roupagem futurista. Nasceu uma ideia: vamos usar a tecnologia e a vigilância para construir nossa versão da utopia!


Doadores pagaram suas cotas; porta-vozes foram encontrados. Eles até criaram seu próprio movimento social bacana, conhecido como altruísmo eficaz. O que é fascinante no altruísmo eficaz é a clareza com que ele se posiciona como anti-cultural — aliás, contra tudo que respeite ou mesmo admita diferenças entre seres humanos, muito menos entre nações. “O modelo implícito [do altruísmo eficaz] é que o peso moral é intercambiável e independente da localização. Uma vida salva é uma vida salva, independentemente de qualquer outra consideração”, observou um crítico no X, que explicou que, ao fundamentar seus princípios na ausência de fronteiras e na matemática, em vez de nos relacionamentos íntimos com seres humanos reais cujas vidas e destinos estão diretamente ligados aos nossos, o altruísmo eficaz se torna um sistema não para lidar com as questões mais difíceis da vida, mas para evitá-las. “A moralidade não é apenas um problema de alocação. Você tem obrigações morais porque está situado. Porque você é pai, vizinho, membro de uma comunidade, participante de uma rede local de interdependência.” Se, no entanto, você não for nenhum desses seres humanos incômodos, criará menos atrito para os sistemas digitais globais — que é o objetivo.


O que quase nenhum político parece ser capaz de oferecer é um tipo de política que possa apelar para um senso de propósito coletivo que inspire e mobilize a maioria dos cidadãos. Na ausência de tal apelo, o resultado em todo o Ocidente tem sido uma série de governos de coalizão fragmentados, divididos por uma política rasteira que se assemelha cada vez mais a uma guerra declarada.


Quase a partir do nada, a única coisa em que aparentemente todos — elites, pessoas comuns, velhos, jovens, direita, esquerda — de repente concordam é que seu problema é … o Sionismo. Israel é singularmente maligno, afirmavam, porque é um “etno-estado”.


Não é por acaso que a famosa frase de Herzl — "Se quiseres não será um sonho" — tem duas partes: a vontade, mas também o sonho.

A princípio, isso pareceu uma resposta estranha para o desafio mais importante do momento: o declínio perigosamente rápido de seus próprios Estados nos quais as culturas se fundem. Mas, sob essa perspectiva, torna-se óbvio que os ataques a Israel foram, na verdade, ataques às identidades nacionais de todos os outros. Se o Sionismo, como movimento nacionalista, é considerado de alguma forma ilegítimo, é para garantir que a França e a Alemanha — nações muito mais jovens, com longas histórias de guerras com seus vizinhos e conquistas de outros povos e territórios — também sejam consideradas ilegítimas. Se os colonos sionistas não têm lugar na Palestina, uma terra onde nenhum Estado-nação soberano jamais existiu nos milênios anteriores, que foi estabelecida como pátria nacional do povo judeu sob o direito internacional, e onde os judeus continuam a praticar a mesma religião e a falar a língua de seus ancestrais de 3.500 anos atrás, então com que direito podem os cidadãos de nações colonizadoras como os Estados Unidos ou a Austrália reivindicar o direito de habitar seus próprios países e de possuir suas casas?


Por favor, não seja bobo. O Sionismo não se tornou alvo por causa dos supostos "crimes" do governo israelense, que ordenou a invasão de Gaza em resposta a um ataque maciço contra o próprio país, no qual terroristas islâmicos estupraram mulheres, assassinaram idosos sobreviventes do Holocausto, massacraram moradores de aldeias coletivas de esquerda e mataram centenas de pessoas em uma festa rave. O Sionismo se tornou alvo porque representava aquilo que os ocidentais de direita afirmam desejar desesperadamente, mas são incapazes de alcançar, e aquilo que os ocidentais de esquerda desejam definir como impossível: uma forma de nacionalismo orientada para o futuro, e não para o passado, e capaz de defender seu particularismo ao mesmo tempo que protege as liberdades individuais e sociais.


Eis quatro testes de sobrevivência para sociedades livres que, até hoje, apenas Israel supera:


1.        Você consegue manter sua demografia? Os israelenses têm uma taxa de natalidade acima da taxa de reposição, o que os torna únicos entre os países ocidentais. Os israelenses demonstram de maneira inequívoca o otimismo quanto a seu futuro.


2.        Você consegue se defender? Os israelenses estão dispostos a lutar e morrer para defender seu país e uns aos outros de uma forma que os cidadãos de outros países ocidentais simplesmente não estão. (No ataque deste mês ao Irã, o chefe da Força Aérea Israelense não estava em uma torre de controle ou escritório; ele estava nos céus com seus pilotos, pilotando um dos aviões.) Pessoas que não estão dispostas a lutar por sua própria sobrevivência tendem a não sobreviver.


3.        Você é feliz? Israel está consistentemente entre as nações mais felizes do planeta, apesar de estar envolvido em frequentes guerras violentas. A sociedade israelense nem é pacífica nem isenta de conflitos civis. O que eles são é um povo ligado à terra, que também é inovador em tecnologia; que viajam pelo mundo, mas, quando estão no país, passam todas as sextas-feiras à noite com a família; que são seculares o suficiente para morar em uma das cidades mais sensuais do mundo (Tel Aviv), bem como em outra cidade tão impregnada na história do anseio religioso (Jerusalém) que possui sua própria síndrome; onde as pessoas tomam capuccinos ao lado de sítios arqueológicos com artefatos que datam de 125 aec, e os rapazes não tem medo de abordar moças para uma conversa pessoal.


4.        Teste final: Em um mundo de ferramentas de informação ultra-poderosas que permitem que um pequeno número de pessoas tenha uma influência sem precedentes sobre os desafios do mundo real, o sucesso nacional não é mais uma questão de quem consegue mobilizar o maior exército ou a maior força de trabalho. Em vez disso, o sucesso pertence a quem conseguir formar as equipes mais inteligentes e coesas. Se, na aurora de uma revolução da IA ​​que provavelmente redefinirá tudo sobre os humanos e sua produção, você tivesse que escolher ser presidente de um de dois países — ou uma nação de 70 milhões de pessoas que lutam contra drogas e obesidade e conta com milhões de pessoas que não desejam se adaptar ou odeiam abertamente seus vizinhos e sua cultura em geral, ou um país de 10 milhões de pessoas, metade das quais (homens e mulheres) foram treinadas e serviram no exército, e outra metade inteira estuda um documento legalista obscuro e complexo o dia todo — qual você escolheria?


Essa alquimia do velho e do novo, de assumir o controle do próprio destino e mudar o curso da história no meio do caminho, é característica do Sionismo. É também assim que o Sionismo, tendo cumprido sua promessa para com os judeus, o Sionismo é agora uma tecnologia para a renovação nacional que poderia, em tese, ser usada por qualquer grupo.


Para entender o que quero dizer, compare o que está acontecendo no Ocidente com a presidência de Javier Milei na Argentina. Em resposta a um país cuja economia estava em colapso e cuja cultura nacional estava mergulhada em ansiedade e depressão, Milei apresentou aos argentinos a perspectiva de participar de um novo e promissor experimento, no qual poderiam definir seu país como algo além de um mero caso perdido da economia. Em vez da escolha usual entre a oligarquia corrupta, porém elegante, da esquerda, com seus acordos privilegiados com os sindicatos que levavam o país à falência, ou a oligarquia latino-americana mais tradicional da direita, composta por latifundiários hereditários apoiados pelas instituições da Igreja Católica e pelos generais militares que governaram o país de forma desastrosa durante uma era de regime militar, Milei ofereceu uma nova solução, ao mesmo tempo extremamente idealista e totalmente pragmática: uma “terapia de choque” radical baseada no mercado, que toda pessoa inteligente na Argentina sabia que o país precisava, mas que nenhum político jamais teve a capacidade e a coragem de implementar.


Milei é um artista excêntrico, inteligente e muito enérgico. Ele é extremamente focado e agressivo (alguns diriam até maluco), mas também demonstra abertamente a alegria desenfreada que sente pelo país, sua cultura, música e muito mais. E seu vigor físico incisivo reflete sua maneira de governar: um mês após assumir o cargo, ele cortou o orçamento em 30% e instituiu uma política monetária que, em 12 meses, reduziu a inflação de 25% ao mês para 2,2%. Essa estratégia atrai uma geração de jovens profissionais que estudaram economia pela Escola de Chicago em universidades americanas, bem como comerciantes e cabeleireiros cansados ​​de promessas não cumpridas e da estagnação constante. É um pacto social totalmente novo, que permite aos argentinos se sentirem enraizados em sua cultura e passado, mas livres de seus piores fardos e — inspirados pela aparente incapacidade de Milei de ficar parado — energizados para trabalhar em prol de sua visão de um futuro dramaticamente diferente e otimista.


Em outras palavras, o que Milei está manifestando é o Sionismo para argentinos. Lee Kuan Yew concebeu o Sionismo para singapurianos. Narendra Modi pratica o Sionismo para indianos. O que conecta esses homens não é apenas o fato de terem escolhido o nacionalismo em detrimento do internacionalismo — de terem fundamentado suas ideologias nas especificidades de suas culturas únicas, que insistiram em manter separadas e distintas das demais —, mas também o fato de serem idealistas ambiciosos e voltados para o futuro. Esse equilíbrio entre particularismo cultural, pragmatismo rigoroso e quase insondável idealismo inspirador? Isso é o Sionismo.

Para quem procura revitalizar ou construir sociedades livres, impulsionadas pelo progresso dos seres humanos em toda a sua complexidade e glória, a questão que se apresenta é dupla.

Primeiramente, vocês estão dispostos a se verem como parte de uma etnia, uma nação de alguma forma diferente e distinta das outras? Ou vocês veem as identidades nacionais como relíquias do passado? Não é para sermos relutantes com relação a isto. Muitas pessoas de bem hoje em dia veem os países como conjuntos de indivíduos unidos pelas legalidades de um status de cidadania comum e da posse de passaportes, dentro da grande rede de nações com aeroportos. Essas pessoas são internacionalistas.


Segundo, se vocês querem ser nacionalistas, vocês estão orientados para o passado ou para o futuro? Vocês fundamentalmente querem e acreditam que podemos retornar ao passado? Não se trata de ser religioso e inspirado por seu legado espiritual e histórico; trata-se de olhar para esse passado e enxergar a forma e os detalhes do futuro.


O motivo pelo qual acho JD Vance desagradável não é por ele ser amigo de Tucker Carlson. Nem mesmo é que a hostilidade de Vance em relação a Israel me incomode como judia. É que me incomoda como americana — porque Israel é um dos principais mecanismos pelos quais os Estados Unidos projetam poder. Neste ponto, entendo por que Carlson não quer isso; ele está apelando para um público internacional que não quer isso. Será que o mesmo se aplica a Vance? Não sei. Mas sua recusa, à la Obama, em reconhecer e afirmar com confiança o excepcionalismo americano, o isolacionismo que parece não ser proteção, mas sim insegurança, o ressentimento em relação a outros países e a avareza míope, a experiência no setor de capital de risco — tudo isso exala um homogeneismo digital e a estagnação que ela inevitavelmente produz.


Apagar nossas diferenças não nos aproxima das outras pessoas; apenas nos torna mais parecidos com máquinas.

É também um comportamento fundamentalmente avesso ao risco, de uma forma muito típica da geração do milênio [30-45 anos em 2026]. O nacionalismo Sionista evitou alguns dos embates da Europa simplesmente por ter chegado muito tarde à arena. Mas talvez o mais importante seja que o seu idealismo lhe permitiu assumir riscos enormes, sem os quais nunca teria se tornado realidade.


Durante 2.000 anos, os judeus sonharam em retornar à sua pátria sem ter sucesso na  reconstrução de sua existência nacional. O mundo é um lugar imenso, e potências e impérios em constante mudança controlavam as terras onde outros povos viviam. Os próprios judeus estavam dispersos, fracos e politicamente impotentes. É por isso que a magnitude daquilo que o movimento Sionista realizou é tão improvável e tão surpreendente que é natural que muitas pessoas imaginem o Sionismo como um movimento obscuro apoiado por um império sem nome com extraordinária riqueza e poder à sua disposição — seja esse império secreto os britânicos, os americanos ou os Sábios de Tsion.


Na realidade, tal poder externo não existiu. Em vez disso, foi o pragmatismo determinado e a esperança audaciosa de alguns milhares de homens e mulheres, herança de uma aspiração nacional mantida viva por milhares de anos em orações diárias, que deu origem a um Estado moderno. Esse Estado começou com muito menos recursos do que seus vizinhos, que contavam com o apoio do Império Britânico, mas logo os superaria em poderio militar e econômico. Não é por acaso que a famosa frase de Herzl — "Se quiseres não será um sonho" — tem duas partes: a vontade, mas também o sonho.


Essa é a chave para enfrentar o futuro digital, que será impulsionado não pelas pessoas com mais diplomas de Harvard, mais estágios no Congresso ou mais seguidores no Instagram, mas sim por aqueles que têm mais energia e disposição para correr riscos. “Na verdade, eu adoro me esforçar", disse a patinadora olímpica Alysa Liu em uma entrevista com Sharyn Alfonsi, do programa 60 Minutes, que pareceu confusa e ofendida com o conceito. "Isso me faz sentir viva." Liu estava descrevendo de forma perfeita e perspicaz este nosso momento. Se esforçar é algo que os humanos fazem, mas os robôs não.


Ver uma nova geração compreender isso, em ambos os lados do Atlântico, têm sido um dos raros pontos positivos do ano passado: “Será tão bom fazer algo difícil. Será tão, tão bom. Você nem precisa ter sucesso de imediato, pode falhar. Não importa. Você ainda assim se sentirá bem. E quanto mais você fizer, melhor se sentirá. Quando você perceber que é capaz, sentirá vergonha de si mesmo no passado, quando se debatia em total impotência.”


Agora, tudo o que precisamos é encontrar líderes que entendam isso, que compreendam que luta não significa sadismo ou auto agressão, ou que são atitudes fundamentalmente fracas e derrotistas. Líderes que entendam que o nacionalismo bem-sucedido não é chauvinismo ou patriotismo exacerbado. Trata-se de compreender e abraçar a realidade de que todos nós abordamos o mundo com nossa própria história e ponto de vista distintos — e que, sem isso, não somos libertados, mas sim destituídos, degradados.


Eu entendo o desafio: muitas pessoas passaram gerações demais desconectadas de seus próprios laços culturais para serem capazes de reconhecê-los, muito menos articulá-los novamente. Encontrem seus poetas, artistas e historiadores! Encontrem pessoas que não tenham medo de admirar o Sionismo por demonstrar que é somente através do particular que podemos realmente alcançar o universal — porque são as nossas particularidades que nos tornam reais.

E não apenas líderes. Ao entrarmos em uma era dominada por tecnologias e ideologias políticas projetadas para eliminar as diferenças entre os seres humanos, aproxime-se de familiares, amigos e outras pessoas que entendam que apagar nossas diferenças não nos aproxima das outras pessoas; apenas nos torna mais parecidos com máquinas. Juntos, busquem tornar seu sucesso coletivo tão extraordinário e tão improvável que inimigos e estranhos não consigam evitar criar teorias da conspiração sobre como vocês conseguiram alcançado.


Na antiguidade, os judeus legaram ao mundo o conceito de nação, distinto de tribo e império — o que, por sua vez, deu origem à identidade nacional moderna. Agora, com o Sionismo, Israel novamente forneceu ao mundo uma estrutura para o futuro, desta vez para evitar e transcender os impulsos gêmeos em direção à desintegração digital da identidade e à auto-adoração. Não tenha tanto medo do presente ou tanto inútil ressentimento de quem o concedeu a ponto de privar a si mesmo e aos que estão ao seu redor daquilo que vocês merecem. Como dizemos em iídiche, nutz gezunterheit:


Use-o com saúde.


E não precisa agradecer.

 


 
 
 

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