Newsletter - O debate sobre migração que Israel não está tendo | Por Raffi DeMogge | Revista Mosaic - Tikvah
- Academia Judaica - Comunicação

- há 2 dias
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Duas narrativas opostas dominam o debate sobre a emigração judaica e a aliá. Nenhuma delas aborda as tendências que realmente importam.

Desde os massacres de 7 de outubro, a mídia israelense vem sendo inundada por histórias de cidadãos — geralmente profissionais seculares e bem-sucedidos — que deixaram o país por estarem desgostosos pela disfunção política e pelo mau desempenho do governo. Essas reportagens criam a impressão, e às vezes afirmam abertamente, que se trata de uma onda de emigração sem precedentes que corre o risco de causar uma importante “fuga de cérebros”, com sérias consequências econômicas. Simultaneamente, judeus na Dispersão compartilham histórias sobre o expressivo aumento da migração para Israel pelos que estão tão incomodados pelo antissemitismo a ponto de passar a sentir um profundo senso de ligação com sua terra ancestral. Essas duas narrativas, diametralmente opostas, convivem completamente apartadas, uma prestando quase nenhuma atenção à outra.
A primeira narrativa predomina na mídia de oposição israelense, bem como no meio social que constitui seu público principal: a elite liberal e a classe média secular. Jornais como o Haaretz (o mais conhecido no exterior), o Yediot Aharonot (menos conhecido internacionalmente, mas muito mais lido em Israel) e o Maariv, além de canais de TV críticos à coalizão governista, publicam regularmente entrevistas, perfis e programas especiais que abordam o fenômeno dos judeus que deixaram o país. Os emigrantes destacados são tipicamente recentes, oriundos da classe média secular israelense, que frequentemente trabalham em requisitadas profissões de colarinho branco ou na área do conhecimento. São médicos, trabalhadores de alta tecnologia, engenheiros, acadêmicos e empreendedores. Raramente são retratados como fugindo da guerra, o que ainda é amplamente vista como um tabu em Israel. Em vez disso, as reportagens tendem a focar num sentimento de exaustão com o sistema político, com uma suposta má gestão da guerra pelo governo, e na busca por um futuro melhor para seus filhos.
Esses relatos contribuíram para uma narrativa popular: a má gestão sistemática de Benjamin Netanyahu e seus parceiros de coalizão vem empurrando os melhores e mais brilhantes israelenses para a emigração há muitos anos, contudo o fenômeno ganhou força com a crise política de 2023, que se seguiu à proposta de reforma judicial (que muitos israelenses viram como um ataque ao caráter liberal-democrático de Israel), e se acelerou ainda mais com a guerra em múltiplas frentes que está em curso (ou melhor, com seu mau gerenciamento e/ou duração desnecessária). Podemos chamar isso de “Narrativa do Abandono”: os israelenses deixam o país em massa porque se sentem abandonados pelo país e seu governo; o massacre de 7 de outubro e as ações do governo desde então são sintomas desse abandono.
A segunda narrativa, especialmente dominante em alguns círculos judaicos da Dispersão, com ecos ocasionais em veículos da mídia de direita em Israel, poderia ser chamada de “Narrativa do Antissemitismo”. De acordo com essa narrativa, os massacres de 7 de outubro e a guerra regional que se seguiu abalaram não apenas Israel, mas também a Dispersão Judaica. Uma onda sem precedentes de antissemitismo assolou os EUA e outros países ocidentais, manifestando-se de diversas maneiras: depredação de prédios judaicos, ataques físicos e verbais contra judeus e a normalização de discursos antissemitas, tanto velados quanto explícitos, tanto na esquerda quanto na direita — frequentemente disfarçados como críticas legítimas a Israel. Nessa nova realidade, muitos judeus questionam a segurança que acreditavam ter em seus países e ponderaram suas opções. Segundo a Narrativa do Antissemitismo, muitos deles optaram pela aliá, preferindo os desafios únicos da vida em Israel às ameaças à segurança e à dignidade judaicas na Dispersão.
A ""Narrativa do Abandono"" diz que israelenses estão deixando o país porque se sentem abandonados por seu governo. Já a ""Narrativa do Antissemitismo"" diz que uma onda sem precedentes de antissemitismo no mundo está provocando o aumento da aliá
Neste texto, examinarei essas narrativas à luz dos dados disponíveis sobre os padrões migratórios de e para Israel. Como ficará claro, tanto a Narrativa do Abandono quanto a Narrativa do Antissemitismo identificam fenômenos reais, mas os distorcem significativamente, muitas vezes involuntariamente. A realidade é bem diferente, mesmo que cada narrativa contenha um núcleo de verdade. Após explicar os padrões reais de emigração e imigração, avaliarei a importância desses padrões a longo prazo para a composição social e para a economia de Israel — e, em seguida, abordarei os fatores reais que moldarão a demografia do Estado judeu nos próximos anos.
Os Números
Antes de analisar os números, devo esclarecer o que significa emigração no contexto israelense. Esta não é uma questão trivial, visto que o Departamento Central de Estatísticas (DCE) alterou recentemente a definição. Até 2021, um cidadão israelense era considerado emigrante somente após deixar o país por pelo menos 365 dias consecutivos. Esse método subestimava significativamente a emigração, já que muitos emigrantes retornam com alguma frequência a Israel para visitas curtas a familiares. A partir de 2022, o DCE revisou a definição de emigrante da seguinte forma: um emigrante é um cidadão que, após deixar o país, passou pelo menos 275 dias do ano no exterior, incluindo 90 dias consecutivos imediatamente após a partida. Esse método classifica corretamente como emigrantes os cidadãos que vivem no exterior, mas retornam para visitas curtas.
Por exemplo, israelenses que dividem o ano entre Israel e outro país não são considerados emigrantes, desde que tenham passado pelo menos três meses do último ano em Israel. É importante notar que, devido à natureza dessa definição, o status de emigrante em Israel é retroativo. Por exemplo, os dados de emigração de 2025 referem-se a cidadãos que deixaram o país em 2024. Isso é inevitável; afinal, a essência da emigração não é simplesmente deixar um país, mas sim não retornar por um determinado período depois. Assim, nossa compreensão de emigração está sempre um ano atrasada em relação ao que está acontecendo no momento.
Vamos analisar os dados. Vou me concentrar em 2024 e 2025, os únicos anos completos que poderiam ter sido afetados pela guerra ou pela crise política em torno da reforma judicial. Os números certamente não são animadores. Durante esses dois anos, mais de 150.000 cidadãos israelenses deixaram o país (82.700 e 69.300, respectivamente) — um aumento significativo em comparação com os anos anteriores. Em 2023, a taxa de emigração já era de 59.300, um aumento em relação aos anos anteriores (o número oscilou entre 34.000 e 45.000 entre 2010 e 2022). Ao mesmo tempo, houve uma ligeira diminuição no número de cidadãos que retornaram: 24.200 em 2024 e 19.000 em 2025 (a média era de cerca de 23.000 a 30.000 entre 2010 e 2020, com exceção de 2021, que foi fortemente afetado pela pandemia do coronavírus).
2024 e 2025 foram anos com aliá acima da média, mas esta aliá foi compensada por níveis excepcionalmente altos de emigração
Em termos de aliá, 2024 e 2025 foram anos médios em comparação com a década de 2010: cerca de 55.000 novos imigrantes chegaram a Israel durante esse período (32.000 em 2024 e 22.000 em 2025). Essa mudança representa uma queda em relação ao pico de 2022-2023, que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia, mas está em grande parte alinhada com a tendência da década anterior, quando a taxa anual de aliá oscilou entre 16.000 e 34.000 por ano. No total, Israel teve uma taxa de migração negativa tanto em 2024 quanto em 2025: mais de 50.000 israelenses deixaram o país durante esse período do que olim [novos imigrantes] e israelenses que retornaram. Esta é a primeira vez que Israel registra um saldo migratório negativo desde 1986, embora o padrão seja diferente nos dois casos. Embora 1986 não tenha sido um ano particularmente ruim em termos de emigração, foi o ano de aliá mais fraco da história do país (com menos de 10.000 olim). Em contraste, 2024 e 2025 foram anos com aliá acima da média, mas esta aliá foi compensada por níveis excepcionalmente altos de emigração.
Embora alguns desses emigrantes se encaixem no perfil daqueles destacados pela mídia tradicional — sabras (ou seja, judeus nascidos em Israel) instruídos e seculares de cidades de classe média ou kibutsim —, estes eram, na verdade, uma minoria. O típico emigrante israelense pós-2024 é bem diferente. Em 2025, apenas metade de todos os emigrantes havia nascido em Israel, e somente 45% eram sabras. Em 2024, meros 42% dos emigrantes eram nativos, e apenas um terço eram sabras. Assim, pelo menos 60% dos emigrantes dos últimos dois anos não se encaixam no perfil do emigrante israelense entrevistado nas reportagens do Haaretz ou da Rede Kan de notícias.
As estatísticas lançam luz sobre o aspecto menos comentado da emigração na imprensa israelense: a taxa dramática de emigração dos cidadãos não judeus e não árabes. Quase 10% do total de cidadãos não judeus e não árabes deixaram o país no período de 2024-2025
Quem são esses 60% restantes? Temos dados mais detalhados para 2024, quando 5% de todos os emigrantes israelenses foram cidadãos árabes e outros 35% eram "outros": cidadãos não judeus e não árabes, a maioria dos quais havia se qualificado para imigrar para Israel pela Lei do Retorno, mas não são judeus segundo a lei judaica (halachá). Em 2025, também, apenas cerca de 63% de todos os emigrantes foram judeus, e a maior parte do restante era composta por aqueles que as estatísticas oficiais chamam de "outros", juntamente com uma pequena porcentagem de árabes israelenses.
Assim, uma constatação imediata é que os árabes estão sub-representados entre os emigrantes (apenas 5% dos emigrantes, mas 21% da população total), enquanto os “outros” estão fortemente sobre-representados (mais de um terço de todos os emigrantes em 2024-2025, mas 5% da população geral). Essas estatísticas lançam luz sobre o aspecto menos comentado da emigração na imprensa israelense: a taxa dramática de emigração entre os recém-chegados de "outros". Em 2023, havia cerca de 550.000 pessoas classificadas como "outros" em Israel, das quais 50.000 deixaram o país nos últimos dois anos. Isso significa que quase 10% dos cidadãos israelenses não judeus e não árabes deixaram o país no período de 2024-2025.
O grupo "outros" sempre foi o segmento populacional com a maior taxa de emigração, mas entre 2023 e 2025, um fator adicional amplificou esse fenômeno: a invasão da Ucrânia pela Rússia. Logo após a invasão, houve um aumento acentuado na aliá (imigração para Israel) da Rússia. A explicação é simples: muitos cidadãos russos buscaram deixar o país não somente para evitar o alistamento militar, mas também para escapar de um país cada vez mais autoritário, sujeito a sanções e isolado diplomaticamente. A maioria dos países ocidentais fecharam suas portas para os cidadãos russos, mas Israel permaneceu uma opção para aqueles que se enquadravam nos critérios da Lei do Retorno (judeus e pessoas com pelo menos um avô ou avó judeu(ia), juntamente com suas famílias). Consequentemente em 2022 e 2023 mais de 100.000 olim (imigrantes russos) chegaram da antiga União Soviética, a maioria da Rússia — números não vistos desde a década de 1990.
Contudo, como logo ficou claro, nem todos esses imigrantes pretendiam ficar em Israel por um longo prazo: muitos apenas queriam um passaporte israelense, o que os ajudaria a contornar as restrições de visto impostas a cidadãos russos em países ocidentais. Hoje, apenas cerca de metade dos imigrantes russos que se mudaram para Israel após a invasão da Ucrânia pela Rússia ainda vivem no país. Os que emigraram constam das estatísticas de emigração de Israel.
Em 2024, 76% dos emigrantes israelenses nascidos no exterior haviam chegado a Israel apenas nos cinco anos anteriores; 68% deles se mudaram para Israel em 2022 ou 2023. Isso significa que os “imigrantes de transição” — estrangeiros, em sua maioria da Rússia, que fizeram aliá formal para Israel, mas rapidamente se mudaram para outros países — representam cerca de 40% de toda a emigração em 2024. Os números são semelhantes em 2023, quando 67,5% dos emigrantes nascidos no exterior e 38% de todos os emigrantes foram imigrantes recentes (de 2018 ou depois). No momento da redação deste texto, ainda não tenho acesso aos dados de 2025, mas estimo que a proporção de imigrantes recentes entre os emigrantes seja um pouco menor do que em 2023-2024, mas ainda bastante alta.
Isso aponta para outro aspecto pouco discutido da emigração: hoje, a emigração de Israel é, em grande medida, resultado de uma falha na retenção de imigrantes e, mais especificamente, consiste frequentemente na rápida rotatividade de olim. Em outras palavras, um grande número de pessoas aparece tanto nas estatísticas de imigração quanto nas de emigração de Israel, muitas vezes com, no máximo, alguns anos entre as duas entradas. Não é de surpreender que a aliá (imigração para Israel) frequentemente não tenha sucesso: os olim enfrentam os mesmos problemas que afetam universalmente os novos imigrantes em outros países (novo idioma, choque cultural, escassez de opções de carreira adequadas, etc.) e, claro, as dificuldades específicas da vida em Israel.
O governo israelense sempre poderia ter feito mais para auxiliar os olim em seu processo de integração, mas é preciso reconhecer que pouco se pode fazer em relação ao fenômeno da aliá transitória. Muito provavelmente, os imigrantes russos que partiram poucos meses após receberem seus passaportes nunca tiveram a intenção de permanecer em Israel por longo prazo, e nada os teria persuadido a tentar.
Talvez não seja surpreendente que os cidadãos que retornam ao país apresentem características demográficas marcadamente diferentes daqueles que emigram do país: em 2024, 77,6% eram judeus e 12% eram árabes; ambas porcentagens superiores à sua proporção entre os emigrantes. Em 2025, os números foram semelhantes: 74% dos cidadãos que retornaram eram judeus. Os cidadãos que retornam também são menos propensos a serem estrangeiros do que os emigrantes: 61% dos cidadãos que retornaram em 2024 e 74% deles em 2025 haviam nascido em Israel.
Embora cada história individual seja diferente, uma análise mais detalhada da composição demográfica dos emigrantes nos dá algumas pistas sobre por que mais pessoas emigraram em alguns anos do que em outros. Como mencionei anteriormente, uma razão frequentemente citada é a reforma judicial. No entanto, a análise mensal dos números de emigração sugere que as evidências para essa hipótese são escassas. A crise política em torno da reforma começou em janeiro de 2023, com o anúncio da proposta legislativa de Yariv Levin, e os ataques de 7 de outubro ocorreram nove meses depois. Assim, o suposto efeito da reforma sobre os níveis de emigração seria mais claramente visível se houvesse um aumento significativo no número de judeus nascidos em Israel que emigraram entre os primeiros nove meses de 2023 e o mesmo período de 2024. Concentrar-nos nesse grupo permite excluir a aliá transitória da Rússia, bem como os segmentos da população que, em grande parte, observaram o desenrolar da crise política à margem.
Dentro dessa população, observa-se um aumento modesto de 3.318 emigrantes entre os primeiros nove meses de 2023 e o mesmo período de 2024 (de 16.799 para 20.117). Contudo, tais flutuações são bastante comuns, mesmo entre anos sem guerras ou crises políticas, de modo que podemos afirmar, com cautela, que o efeito demonstrável da reforma judicial sobre os níveis de emigração é, no máximo, mínimo. O que claramente teve um impacto significativo foi o 7 de outubro: em outubro de 2024, quase 15.000 israelenses emigraram (a maioria deles estrangeiros), mais de três vezes o número registrado doze meses antes. Nos meses seguintes, os níveis de emigração também permaneceram mais altos do que nos anos anteriores.
Os cidadãos árabes são os menos propensos a emigrar, enquanto os nascidos no exterior não judeus e não árabes são os mais propensos a fazê-lo
Em resumo, as tendências de emigração em Israel variam significativamente de acordo com a identidade nacional e o país de origem. Os cidadãos árabes são os menos propensos a emigrar, enquanto os nascidos no exterior não judeus e não árabes são os mais propensos a fazê-lo, com outros grupos situando-se em algum ponto intermediário. A atenção desproporcional que a mídia israelense dedica aos árabes emigrados é compreensível, visto que essas pessoas são consideradas as mais representativas da experiência israelense típica. Essa narrativa, contudo, oferece uma visão distorcida da realidade.
No típico segmento sobre emigração, o telespectador vê um membro de kibutz sabra de terceira geração, com um nome israelense comum como Doron, com lágrimas nos olhos, explicando que Israel mudou e que ele não pode mais criar sua família lá. Embora certamente existam emigrantes como o nosso imaginário Doron, ele não representa a experiência do emigrante israelense. O típico emigrante israelense é um ex-imigrante, provavelmente chamado Sergey ou Alex, que provavelmente chegou ao país recentemente e, como seu vínculo com Israel é relativamente fraco, está mais preocupado com sua qualidade de vida e com a guerra em múltiplas frentes de Israel do que com a política interna do país.
De fato, não é de surpreender que muitos daqueles que fugiram da Rússia por causa de uma guerra prefiram se mudar para países distantes de conflitos. Israel, apesar de todas as suas virtudes, não é um destes países. Os dados, na verdade, confirmam essa suspeita. Embora poucos israelenses admitam abertamente que deixaram o país simplesmente por causa da guerra, é fato que, após 7 de outubro, a emigração aumentou drasticamente, enquanto o aumento durante os nove meses anteriores (período que não foi afetado pela guerra, mas que poderia ter sido afetado pela crise em torno da reforma judicial) foi muito pequeno. Este é mais um aspecto em que a realidade não confirma a narrativa.
Há mais um detalhe importante sobre Doron: ele provavelmente é engenheiro de software e casado com uma médica. Ou seja, o que chamo de Narrativa do Abandono se concentra principalmente em membros da elite e da classe média israelenses, e afirma que o comportamento irresponsável de Israel (suas crises políticas internas e guerras excessivamente longas) afasta os “melhores e mais brilhantes”. Na próxima seção, analisarei mais detalhadamente a estratificação social dos emigrantes.
Quem está partindo: Renda e Educação
A emigração de Israel é frequentemente associada à fuga de cérebros, ou mais precisamente, à fuga da elite: a saída de pessoas altamente educadas, altamente qualificadas e com altos rendimentos. Uma análise mais detalhada dos dados revela que, embora essa imagem tenha algum fundamento na realidade, os emigrantes são socioeconomicamente muito mais heterogêneos. Em um artigo os cientistas sociais israelenses Itai Ater, Nitai Bergman e Doron Zamir [este artigo será referido a seguir como “Ater, Bergman e Zamir”] analisaram as características dos emigrantes israelenses em diversos parâmetros. Sua pesquisa exclui os “imigrantes de curto prazo”, ou seja, ex-imigrantes que deixaram o país em até três anos após sua aliá (imigração para Israel). Eles descobriram que, em 2024, 48% dos emigrantes ganhavam acima da renda mediana e os outros 52% abaixo dela. Em termos de imposto de renda, 37% deles estavam no terço superior da faixa de renda, 27% no terço intermediário e 35% no terço inferior. Ou seja, a distribuição de renda reflete aproximadamente a da população geral de Israel.
Ajustando-se por idade e fase da carreira, os emigrantes israelenses têm rendimentos um pouco mais altos do que a população em geral, mas a diferença não é drástica
Existem, contudo, dois fatores que nos obrigam a qualificar esta constatação. Por um lado, árabes e judeus ultraortodoxos (charedim) representam a maior parte do terço inferior dos contribuintes em Israel, mas têm uma representação muito baixa entre os emigrantes. Isto significa que o emigrante israelense mediano provavelmente ganha um salário inferior ao do judeu não-charedi mediano. Por outro lado, os emigrantes israelenses são relativamente jovens: em 2024, a sua idade mediana era de 31,9 anos. Embora seja um pouco superior à idade mediana em Israel (29,3 anos), é inferior à idade mediana entre os judeus não-charedim e outros grupos étnicos, que podemos estimar estar mais próxima dos 35-38 anos. Isto é significativo porque, em muitas profissões, o rendimento aumenta com a antiguidade, o que significa que se pode esperar que uma população de emigrantes mais jovem tenha um rendimento médio inferior. Assim, embora o emigrante mediano não ganhe significativamente mais do que o israelense mediano, e não seja mais jovem do que o israelense mediano, talvez o emigrante mediano ainda ganhe um pouco mais do que o israelense mediano da mesma faixa etária.
Em suma, podemos afirmar que, em média, ajustando-se por idade e fase da carreira, os emigrantes israelenses provavelmente têm rendimentos um pouco mais altos do que a população em geral, mas a diferença não é drástica, especialmente quando levamos em consideração que poucos dos emigrantes pertencem aos dois setores de menor renda (árabe e charedi).
E quanto aos níveis de escolaridade? As estatísticas sobre o nível de escolaridade dos emigrantes em 2024-2025 são limitadas, mas, de acordo com os dados disponíveis do DCE, entre 2014 e 2023, a parcela de emigrantes com idades entre 25 e 64 anos com pelo menos um diploma universitário manteve-se entre 52% e 57%, e é seguro presumir que 2024 e 2025 não foram casos extremos. Esse número é superior aos 40% dos israelenses em geral que possuem diplomas. No entanto, vale ressaltar que, também nesse caso, pelo menos parte da diferença se explica pela baixa porcentagem de árabes e judeus ultraortodoxos entre os emigrantes, duas populações (especialmente a última) com baixa frequência universitária. Segundo uma pesquisa recente do Centro Taub, a proporção de pessoas com diploma universitário na população judaica não ultraortodoxa é de 45%. Em resumo, podemos dizer que os emigrantes israelenses são mais instruídos do que a população em geral, mas apenas um pouco mais do que seria de se esperar de um segmento de população composto, em sua grande maioria, por judeus não-charedi e "outros".
O panorama geral que emerge é que israelenses de todas as camadas sociais emigram, e não apenas a elite intelectual e econômica, e a sobre-representação desta elite entre os emigrantes é relativamente modesta. Uma análise mais detalhada pode revelar uma sobre-representação maior entre os emigrantes em certas profissões, por exemplo, nas áreas de alta tecnologia e medicina. Grande parte da atenção da mídia sobre a emigração em Israel se concentra nessas duas profissões. Ater, Bergman e Zamir documentam detalhadamente as tendências de emigração entre médicos, trabalhadores de alta tecnologia e engenheiros. Adiante neste texto focarei nos médicos, por dois motivos: (1) a definição de quem se qualifica como médico é mais precisa do que a de quem se qualifica como profissional de alta tecnologia, portanto os dados são mais fáceis de interpretar; e (2) temos dados não apenas sobre médicos emigrantes, mas também sobre médicos nascidos no exterior que fazem aliá, bem como sobre médicos recém-formados.
O panorama geral que emerge é que israelenses de todas as camadas sociais emigram, e não apenas a elite intelectual e econômica, e a sobre-representação desta elite entre os emigrantes é relativamente modesta
No setor de alta tecnologia, não conheço dados equivalentes, embora acredite ser seguro afirmar que a migração líquida de profissionais nessa área permaneça negativa. Há também a possibilidade de que os avanços na inteligência artificial transformem esse setor de maneiras imprevisíveis. Concentrar-nos nos médicos, cuja migração tem sido amplamente debatida em Israel, deve nos permitir examinar a narrativa da fuga de cérebros de forma eficaz.
A Fuga de Cérebros
A emigração de médicos representa realmente uma ameaça ao sistema de saúde israelense? Ater, Bergman e Zamir documentam que, em 2024, 530 médicos deixaram Israel, o que representa um aumento acentuado em comparação com a média da década de 2010, quando o número girava em torno de 250 a 300 por ano. No mesmo ano, 202 médicos retornaram, número que se encontra aproximadamente dentro da média anual. Isso significa que a migração líquida de médicos israelenses em 2024 foi de -328, significativamente pior do que na década de 2010, quando a média era de -50. É importante mencionar que, também neste caso, Ater, Bergman e Zamir ignoram intencionalmente os "imigrantes de curto prazo", cuja inclusão tornaria esses números um pouco piores.
Um saldo migratório líquido de -328 não é um número desprezível. Como um evento isolado em um ano particularmente ruim, não faz muita diferença; mas como tendência, representaria cerca de 15% dos médicos recém-certificados em um determinado ano. Dito isso, há dois fatores importantes que esta pesquisa não leva em consideração, o que mitigaria qualquer tendência desse tipo: a aliá e um aumento no número anual de certificações médicas.
Vamos começar com a aliá. Ater, Bergman e Zamir concentram-se na movimentação de cidadãos israelenses; eles não levam em consideração os cidadãos estrangeiros que se mudam para Israel e depois se tornam cidadãos. Em 2024, 311 médicos imigraram para Israel, o que eleva o saldo migratório total de médicos para -27. Presumivelmente, alguns desses médicos se provarão imigrantes de curto prazo, mas mesmo assim, o saldo migratório total de médicos provavelmente está mais próximo de zero do que do número relatado por Ater, Bergman e Zamir.
Isso por si só não altera o alerta de Ater, Bergman e Zamir sobre a tendência negativa de aumento na taxa de emigração de médicos, sem um aumento semelhante no número de médicos que retornam para compensar. Entre 2014 e 2022, o número de médicos que fizeram aliá flutuou entre 170 e 240 por ano; isso significa que, mesmo que a emigração líquida de médicos tenha sido próxima de zero em 2024, ainda seria pior do que a média anual de +100–200 nos anos anteriores. Mas há uma segunda tendência recente importante que faz diferença: um aumento acentuado no número de novas certificações médicas em um determinado ano. Entre 2020 e 2024, o número de novos médicos certificados por ano aumentou 56%, de 1.783 para 2.637. O número de médicos que estudaram em Israel durante esse período não mudou significativamente; a maior parte do aumento vem de olim e de cidadãos israelenses que se formaram no exterior. Esse aumento compensa amplamente o aumento da emigração.
Nada disso significa que tudo esteja bem e que não haja problemas. Nem todos os médicos são iguais; novos médicos não podem necessariamente substituir os experientes, e a emigração de médicos com especializações raras pode representar um desafio especial. Também vale a pena notar que a maioria dos médicos formados no exterior são cidadãos árabes, que muitas vezes preferem exercer a profissão em suas comunidades locais — o que significa que a emigração de médicos pode ter um impacto maior nas localidades judaicas. (Esta é apenas uma especulação minha, não algo que possa ser comprovado pelos dados).
Ainda assim, esses números sugerem uma ressalva importante aos dados de Ater, Bergman e Zamir: a longo prazo, o principal determinante de quantos médicos trabalham em Israel e de quão carente de pessoal está o sistema de saúde tem menos a ver com quantos médicos emigram (a menos que os números atinjam níveis verdadeiramente apocalípticos) e mais a ver com treinamento e certificação. Se mais pessoas continuarem a se tornar médicos, a emigração do mesmo número de médicos será significativamente menos sentida.
Os Efeitos Demográficos da Emigração
Discuti acima os potenciais efeitos na economia da emigração (e imigração) de profissionais altamente qualificados. Gostaria agora de retornar aos efeitos demográficos brutos. Uma importante tendência atenuante é o retorno a Israel: muitas vezes, a emigração não é definitiva. Quase 50% dos cidadãos israelenses que se mudaram para o exterior em 2015 retornaram até 2024. É difícil prever qual porcentagem de cidadãos que emigraram nos últimos anos retornará; isso dependerá de circunstâncias pessoais, econômicas e políticas, tanto em Israel quanto no país de acolhimento.
Uma coisa que se pode afirmar com cautela é que existem padrões distintos de retorno, dependendo do tipo de país para onde os emigrantes partem. Israelenses que imigram para a América do Norte geralmente se integram ao mercado de trabalho local e obtêm salários mais altos do que obteriam em Israel. Por outro lado, israelenses que se mudam para países com um custo de vida relativamente baixo (Chipre, Grécia, Portugal, Tailândia, etc.) muitas vezes dependem de um emprego remoto e um salário em shekels. Creio que podemos presumir com segurança que a emigração desse último tipo costuma ser temporária, pois seus benefícios não são facilmente transferidos para a próxima geração. Ou seja, os filhos de israelenses que se mudam para os EUA podem esperar encontrar emprego no mercado de trabalho americano, mas os filhos de emigrantes na Tailândia, se crescerem lá, não podem contar com um emprego remoto em Israel.
Quase 50% dos cidadãos que se mudaram para o exterior em 2015 retornaram até 2024
Mas o maior fator negligenciado pelo discurso israelense sobre emigração é a fertilidade. Alguns países com altíssimas taxas de emigração, como Croácia, Albânia e Grécia, também apresentam baixas taxas de fertilidade, uma combinação que pode levar ao colapso demográfico. Em Israel, a situação é diferente: a emigração é relativamente alta (especialmente nos últimos dois anos), mas a fertilidade também é alta. O cenário muda quando analisamos a fertilidade de grupos populacionais específicos: o grupo "outros" apresenta baixa fertilidade (bem abaixo de 1,5, comparável à taxa de fertilidade em países pós-soviéticos), os judeus seculares estão um pouco abaixo da taxa de reposição (estimada em 1,85, segundo os dados mais recentes, em 2025), enquanto os grupos não seculares estão todos acima do nível de reposição. É importante ressaltar que a fertilidade de todos os setores da população judaica diminuiu um pouco desde 2015.
Em termos numéricos, as taxas de fertilidade influenciam muito mais a demografia israelense do que a emigração ou a aliá. O motivo pelo qual a emigração (especialmente a emigração da elite) é prejudicial para Israel não é o fato de mais israelenses viverem no exterior, mas sim o fato de menos viverem em Israel. A queda na fertilidade, principalmente entre os setores que constituem a espinha dorsal da economia israelense (ou seja, os judeus não-charedi), é, portanto, tão prejudicial quanto a emigração. Aliás, a longo prazo, é muito pior: os emigrantes sempre podem decidir retornar (e historicamente, muitos o fazem), mas os bebês que ainda não nasceram não podem retroativamente vir à existência.
Há uma certa tensão na forma como a fertilidade e a emigração são frequentemente discutidas na mídia israelense. Os leitores do Haaretz são frequentemente expostos a artigos que lamentam a fuga de cérebros devido à emigração, mas o mesmo jornal também publica artigos de opinião sobre o perigo da superpopulação em Israel e critica a cultura da fertilidade no país. Isso é um paradoxo: na medida em que a fuga de cérebros é ruim, uma maneira de combatê-la seria produzir novos cérebros.
Em termos numéricos, as taxas de fertilidade influenciam muito mais a demografia do que a emigração ou a aliá
Um exemplo ilustra facilmente esse ponto. Como vimos acima, em 2024, o equivalente a cerca de 15% dos médicos recém-formados em um ano típico deixaram Israel. Certamente, esse não é um desenvolvimento positivo e, consequentemente, tem recebido muita atenção. Mas há outro fenômeno que recebeu muito menos atenção: entre 2017 e hoje, a taxa de fertilidade em todos os setores judaicos diminuiu. A taxa de fertilidade entre os judeus seculares caiu 12%, de 2,1 para 1,85. A dos judeus religiosos passou de 4,33 para 3,71, uma queda de 15%. A taxa de fertilidade dos judeus tradicionais — aqueles que são um tanto religiosos, mas não estritamente ortodoxos — diminuiu aproximadamente na mesma proporção. A taxa de fertilidade no setor árabe diminuiu ainda mais, em 22%.
Isso significa que, mesmo que a taxa de fertilidade não caia mais, daqui a 25 ou 30 anos, mais 15% dos futuros médicos (assim como profissionais de todas as outras áreas) deixarão de existir simplesmente devido à diminuição da fertilidade nos segmentos populacionais em que os futuros médicos nascem. Artigos que alertam para a fuga de cérebros nunca mencionam isso, mas o efeito sobre a força de trabalho de Israel é pior do que se a taxa de fertilidade dos judeus não charedi permanecesse estável entre 2017 e 2057, mas a taxa de emigração de médicos aumentasse de 15% para 25% das novas certificações anuais.
A preocupação com a emigração é justificada, mas, na minha opinião, é secundária em relação às tendências negativas relativas à fertilidade dos judeus não charedim. Se um terço de todos os médicos e trabalhadores de alta tecnologia emigrassem, sua partida receberia muita atenção da mídia, e com razão: a emigração nessa escala reduziria a força de trabalho na medicina e na alta tecnologia em 33%. Mas se a fertilidade dos judeus não charedim (ou seja, a fertilidade combinada dos judeus de todos os setores não charedim) diminuísse de seu nível atual de 2,45 para 1,5 (uma taxa de fertilidade bastante comum para um país ocidental), isso representaria uma queda de quase 40% que prejudicaria ainda mais a economia, mesmo em um cenário hipotético implausível em que absolutamente ninguém emigrasse. Esse desenvolvimento atrairia menos cobertura da imprensa do que o cenário de alta fertilidade/alta emigração, mas causaria muito mais danos ao país.
A emigração tem importância demográfica e econômica, mas nem de perto tanta quanto as taxas de natalidade. Além disso a emigração é reversível, enquanto não nascer é irreversível.
Em resumo: a emigração tem importância demográfica e econômica, mas nem de perto tanta quanto as taxas de natalidade. Além disso, a emigração é reversível (e dados históricos mostram que ela frequentemente é revertida), enquanto não nascer é irreversível. Muito do discurso público gira em torno de como criar incentivos que possam conter ou reverter a fuga de cérebros, mas raramente se considera a solução óbvia de aumentar o número de cérebros.
Aliá: Mito e Realidade
Para o bem ou para o mal, a aliá não recebe muita atenção em Israel hoje em dia, e a pouca atenção que recebe costuma ser negativa. Nos primeiros anos da invasão russa da Ucrânia, a “aliá transitória” (a prática de cidadãos russos fazerem aliá formal e, depois de receberem seus passaportes e os benefícios da aliá, seguirem para a Europa) foi alvo de fortes críticas. Além disso, a alta proporção de olim não judeus da antiga União Soviética (ex-URSS) levou muitos israelenses, especialmente na direita política, a defenderem a revogação da cláusula referente aos avós da Lei do Retorno.
A aliá é um tema muito mais debatido na Dispersão, onde frequentemente surge no contexto do antissemitismo. O aumento drástico do antissemitismo que começou em 7 de outubro de 2023 (antes mesmo de Israel iniciar qualquer operação militar em Gaza) ainda não mostra sinais de arrefecimento. O discurso antissemita tornou-se quase socialmente aceitável, primeiro na esquerda e, mais recentemente, também na direita. Muitas organizações judaicas nos EUA e em outros países ocidentais previam que a crescente hostilidade incentivaria a migração para Israel.
Essas expectativas não deixavam de ter fundamento. Organizações que auxiliam na aliá relataram um aumento notável nas solicitações, bem como no número de judeus que efetivamente fizeram aliá, às vezes em mais de 100%. No Reino Unido, por exemplo, o número de olim em 2025 foi o maior desde 1983; e na América do Norte, 2025 marcou o maior número em mais de 50 anos. A aliá francesa também retornou a níveis não vistos desde meados da década de 2010.
Dito isso, como mencionei no início deste artigo, os números gerais de aliá em 2024-2025 não foram particularmente impressionantes; historicamente falando, esse período foi apenas mediano. Por que isso acontece e como podemos conciliar isso com as notícias entusiasmadas sobre o aumento das taxas de aliá de países ocidentais?
A resposta está no fato, muitas vezes ignorado, de que a aliá de países ocidentais sempre foi baixa em termos absolutos. O recorde de 42 anos do Reino Unido em 2025, que acabei de mencionar, é de apenas 872. Isso representa, de fato, um aumento de 120% em comparação com 2023, mas, em termos absolutos, ainda é apenas uma gota no oceano. O mesmo ocorre com a América do Norte: o número de olim de lá que marca um recorde de 52 anos é de apenas 4.041; uma pequena fração dos cerca de 7 milhões de judeus que vivem nos EUA e no Canadá.
A maioria dos imigrantes para Israel veio da ex-URSS em todos os anos desde 1987… Mesmo variações de 200% na imigração de países ocidentais são insignificantes quando comparadas ao fluxo de imigrantes da Rússia.
Em contraste, o número de olim (imigrantes russos) vindos da antiga União Soviética no ano passado foi de 11.018: uma queda acentuada em comparação com 2022 (63.112), mas ainda quase metade de todos os olim em 2025. E 2025 foi um ano atípico: com exceção de 2021, a maioria dos olim veio da antiga União Soviética em todos os anos desde 2015. De fato, a maioria dos imigrantes para Israel veio da antiga União Soviética em todos os anos desde 1987. O principal determinante do número de aliá (imigração para Israel) em qualquer ano é o número de olim da Rússia e de outras ex-repúblicas soviéticas; mesmo variações de 100% ou 200% vindas de países ocidentais fazem pouca diferença em termos absolutos e são insignificantes quando comparadas ao fluxo e refluxo no número de imigrantes da Rússia, considerando o contexto político e econômico daquele país.
Para aqueles que acompanham as variações anuais no número de aliot por país, nada disso deve ser uma grande surpresa. A triste realidade é que, apesar de toda a agressividade do antissemitismo na Dispersão, a vida em Israel traz seus próprios desafios. Mesmo deixando de lado as ameaças à segurança, para muitos olim ocidentais em potencial, mudar-se para Israel implica uma queda no padrão de vida material. Os salários israelenses (ajustados ao custo de vida) são comparáveis aos da maioria dos países ocidentais, mas significativamente menores do que nos EUA. Apesar disso, todos os anos, milhares de judeus em países ocidentais ainda decidem começar uma nova vida em Israel. Mas para muitos deles, e para a maioria dos que vêm dos EUA, essa decisão envolve uma grande troca. Muitas vezes significa mudar para uma profissão incompatível com o nível de escolaridade, receber um salário menor na mesma profissão ou trocar uma casa grande com quintal por um apartamento modesto.
É uma lei imutável da economia que, salvo circunstâncias extremas, as pessoas tendem a migrar de países mais pobres para países mais ricos, e Israel não é exceção a essa lei. Nesse contexto, também não é surpreendente que a taxa de aliá da Rússia seja muito maior do que a de qualquer país ocidental. A Rússia é significativamente mais pobre do que Israel; desde a guerra com a Ucrânia, tornou-se um lugar menos desejável para se viver em muitos outros aspectos; e, principalmente, os russos (diferentemente dos cidadãos da UE) não têm o direito automático de migrar para países desenvolvidos. Para muitos deles, Israel é a opção mais fácil e, muitas vezes, a única, de passarem a receber salários ocidentais.
Há cerca de dez vezes mais chances de um judeu francês fazer aliá do que um americano, e um judeu russo, cerca de trinta vezes mais chances
Ao pesquisar sobre o número de potenciais olim (imigrantes judeus) para Israel a maioria das pessoas pensa em termos do tamanho da Dispersão judaica em um determinado país. Considerando essa perspectiva, podemos observar que a porcentagem de judeus que fazem aliá (imigração judaica) para Israel a cada ano varia drasticamente de país para país, o que provavelmente nos diz algo sobre as perspectivas judaicas em cada local. O número é inferior a 0,05% da população judaica dos EUA. Mas é de cerca de 0,15% no Reino Unido, 0,25% na Argentina e 0,5% na França. Na Rússia, era de 1,5% da população elegível (a maioria da qual não é judia segundo a halachá) em 2025, e muito maior em alguns anos anteriores. Isso significa que um judeu francês tem cerca de dez vezes mais chances de fazer aliá do que um americano, e um judeu russo, cerca de trinta vezes mais chances.
Embora essas porcentagens pareçam relativamente pequenas, pensar na taxa de aliá de cada país em termos de sua população judaica total é um equívoco. Em vez disso, devemos pensar no número potencial de olim de cada país, às vezes maior e às vezes menor. Podemos dividir os países em dois grupos principais: (1) aqueles que são lugares menos desejáveis para se viver do que Israel e cujos destinos viáveis de emigração (fora Israel) são escassos, e (2) países ocidentais desenvolvidos nos quais os habitantes desfrutam de um padrão de vida pelo menos tão alto quanto o de Israel, ou a partir dos quais é fácil imigrar para um país com padrão de vida semelhante.
A categoria (1) inclui a maior parte da antiga União Soviética, com exceção dos Estados Bálticos (que são membros da UE com livre circulação), América Latina, África do Sul e Etiópia. O grupo de imigrantes nesses países é maior do que a população judaica propriamente dita: inclui qualquer pessoa que tenha pelo menos um avô ou avó judeu(ia) e, portanto, é elegível pela Lei do Retorno. A população judaica é muito mais miscigenada e assimilada em alguns desses países do que em outros (por exemplo, mais na Rússia do que na África do Sul), mas todos esses países são muito mais pobres do que Israel ou estão em situação de vulnerabilidade, o que leva muitos cidadãos à emigração, não apenas judeus. Israel é um destino de imigração atraente para muitos cidadãos da Rússia e da Etiópia, mesmo que sintam pouca ligação com o povo judeu.
A categoria (2), à qual pertencem todos os países ocidentais desenvolvidos, é completamente diferente. Salvo circunstâncias especiais, a maioria dos americanos, e até mesmo a maioria dos cidadãos franceses, não pode esperar uma melhoria em seu padrão de vida mudando-se para Israel. Para que a aliá pareça ser uma opção viável, não basta apenas ser judeu; é preciso também ter uma identidade judaica muito forte. Como regra geral, quanto maior a queda na qualidade de vida material, mais forte precisa ser a identidade judaica para compensá-la ao considerar a aliá.
Nos últimos anos, por exemplo, cerca de 60 a 70% dos judeus americanos que fizeram aliá eram ortodoxos (enquanto apenas 10% da população judaica nos EUA o é). Podemos afirmar com segurança que o contingente efetivo de aliá nos EUA não representa todos os 6,5 milhões de judeus, mas apenas uma minoria, talvez entre 1 e 1,2 milhão (cerca de 700.000 judeus ortodoxos e outros 300.000 a 500.000 judeus não ortodoxos com forte envolvimento comunitário, além de judeus com raízes israelenses). Observações semelhantes se aplicam à França: os olim (imigrantes judeus) de lá são, em sua maioria, judeus ortodoxos ou judeus tradicionais de ascendência norte-africana; o contingente efetivo de aliá não representa toda a comunidade judaica francesa, de 450.000 pessoas, mas talvez metade dela.
O exposto acima significa que o principal determinante do número de aliot de um determinado país em um determinado ano não é o antissemitismo, mas sim uma série de outros fatores que afetam os padrões de migração internacional em todo o mundo. O aumento do antissemitismo é relevante para os judeus com uma identidade judaica muito forte, mas apenas marginalmente: pode representar a diferença entre 3.500 e 2.500 judeus vindos dos EUA, ou 800 em vez de 400 do Reino Unido.
Para que o antissemitismo tenha um impacto real e demograficamente significativo, comparável às grandes ondas históricas de aliá de Israel, ele precisa atingir o nível de discriminação e perseguição institucional sistemática. Isso se aplica a diversas ondas de aliá pré-estatais do Império Russo e da Polônia, impulsionadas por pogroms combinados com o rápido declínio das oportunidades econômicas; à aliá de sobreviventes do Holocausto nos anos imediatamente posteriores à fundação de Israel; ao êxodo de judeus do mundo muçulmano entre 1948 e o início da década de 1970; e, em menor escala, também à aliá de Gomulka da Polônia entre 1956 e 1960 e à primeira onda de aliá soviética na década de 1970. Para que o antissemitismo cause uma onda migratória comparável de países ocidentais economicamente desenvolvidos, ele precisaria não apenas piorar, mas piorar catastroficamente. As leis do Numerus Clausus — cotas rígidas para o ingresso de judeus em universidades, que existiram na maior parte da Europa Central entre as guerras mundiais — dispararam o fenômeno. A vitória de Mamdani nas eleições para prefeito da cidade de Nova York não vai fazê-lo acontecer.
O principal determinante do número de aliot de um determinado país em um determinado ano não é o antissemitismo, mas sim uma série de outros fatores que afetam os padrões de migração internacional
Essas observações me levam a concluir que, em algum momento entre a década de 1990 e agora Israel entrou em uma nova fase de sua história. Nos relatos tradicionais, as principais ondas de aliá definem a história do Sionismo e do Estado judeu. Elas geralmente começam com a Primeira Aliá na década de 1880, passam pela Quinta Aliá na década de 1930 e continuam com os grandes fluxos pós-independência mencionados acima. O último deles foi a onda de aliá que se seguiu ao colapso da União Soviética. De certa forma, essa onda de migração ainda está em curso, visto que o único país de onde um número significativo de olim vem para Israel a cada ano é a Rússia. Mas esse número diminuiu substancialmente desde o seu pico em 1990-1991 e, como vimos, muitos desses imigrantes não são judeus segundo a halachá e muitos são transitórios. Além disso, o potencial de olim na Rússia já está começando a se esgotar. Conforme isso acontece, a era da aliá em massa chegará ao fim.
Hoje, a maior parte da Dispersão judaica vive em países ocidentais economicamente tão desenvolvidos quanto Israel, que não enfrentam os desafios de segurança específicos de Israel e onde os judeus podem ter que lidar com um crescente antissemitismo, mas não com perseguição sistemática. É improvável que esses parâmetros mudem o suficiente para causar uma grande onda de aliá no futuro. Mesmo que o antissemitismo atinja níveis insuportáveis em (digamos) Nova York, será muito mais fácil para a maioria dos judeus que lá residem se mudar para a Flórida ou para o estado vizinho de Nova Jersey do que para Israel. O mesmo se aplica, embora em menor escala, a outros países ocidentais.
Cerca de 85% do crescimento populacional anual de Israel se deve ao crescimento vegetativo e 15% à aliá
Embora o impacto demográfico da aliá em Israel não seja insignificante, o que realmente molda a população do país é a taxa de natalidade. Nos últimos anos, o número anual de nascimentos girou em torno de 170 a 180 mil, enquanto a taxa anual de aliá ficou em torno de 20 a 30 mil. Isso significa que cerca de 85% do crescimento populacional anual de Israel se deve ao crescimento vegetativo e 15% à aliá.
Nas próximas décadas, a aliá da Rússia provavelmente continuará a desempenhar um papel relativamente significativo, mas ainda secundário, e a aliá de outros países, incluindo os ocidentais, um papel bastante menor. Assim, os dois principais pontos cegos da Narrativa do Antissemitismo espelham precisamente dois dos principais pontos cegos da Narrativa do Abandono: ignora tanto os migrantes da antiga União Soviética quanto o impacto da fertilidade. Contudo, em termos numéricos, esses dois fenômenos, e especialmente o segundo, superam consideravelmente os tipos de migração nos quais as duas narrativas se concentram.
Dito isso, o fato da aliá de países que não a Rússia não ser demograficamente significativa para Israel não significa que seja insignificante para a Dispersão. Por exemplo, nos últimos 30 anos, mais de 60.000 judeus franceses emigraram para Israel. Pela perspectiva de Israel, esse é um número modesto: menos de 1% da população judaica do país. Mas pela perspectiva da comunidade judaica francesa, é significativo: a comunidade diminuiu em 15% devido à emigração para Israel, e a porcentagem é muito maior e sentida com mais intensidade em certas comunidades locais.
Na Venezuela, 85% de todos os judeus emigraram desde 1999, reduzindo a população de aproximadamente 45.000 no início do milênio para meros 6.000 atualmente. Embora a aliá continue a ter alguma importância demográfica para Israel, ela é muito mais consequente para a Dispersão.
No caso de comunidades judaicas menores, o efeito pode ser muito mais dramático. O número total de aliot da Venezuela, Grécia e Irlanda tem sido na casa dos milhares desde a fundação do Estado; menos do que um erro de arredondamento em termos da população judaica de Israel. Do ponto de vista dessas comunidades judaicas, no entanto, esses números são enormes. Na Venezuela, por exemplo, 85% de todos os judeus emigraram desde 1999, cerca de metade deles para Israel, reduzindo a população de aproximadamente 45.000 no início do milênio para meros 6.000 atualmente. De modo geral, embora a aliá continue a ter alguma importância demográfica para Israel, ela é muito mais consequente para a Dispersão, onde, mesmo em números absolutos baixos, pode levar ao desaparecimento quase completo de comunidades judaicas.
As Narrativas
Após examinarmos os fatos, podemos agora analisar mais de perto as duas narrativas dominantes sobre a migração: uma popular na esquerda israelense, que afirma que os judeus estão fugindo de Israel porque foram abandonados pelo Estado; e outra popular entre os sionistas da Dispersão, que afirma que os judeus estão fugindo para Israel por causa do antissemitismo. Os dois discursos são conduzidos em quase completo isolamento um do outro. Embora, em teoria, ambas as narrativas possam ser verdadeiras simultaneamente, elas refletem diferentes pressupostos subjacentes sobre a segurança e o bem-estar dos judeus e sobre a vitalidade e o atrativo do Estado judeu.
Os dados, no entanto, contam uma história completamente diferente. Embora tenha havido, de fato, uma onda de emigração em 2024-2025, as pessoas que emigraram não provêm principalmente da elite ou da classe média secular destacada pela Narrativa do Abandono. Em vez disso, trata-se de um grupo bastante heterogêneo, cuja maioria é composta por estrangeiros e no qual os imigrantes não judeus da antiga União Soviética estão amplamente sobre-representados. E embora os emigrantes israelenses sejam, em geral, um pouco mais instruídos e ganhem um pouco mais do que a população em geral, essas diferenças são bastante modestas. Os dados também sugerem (embora isso não possa ser comprovado conclusivamente) que o principal fator para o aumento da emigração foi a longa, dispendiosa e, reconhecidamente, por vezes assustadora guerra, e não tensões sociopolíticas internas.
Da mesma forma, a Narrativa do Antissemitismo é apenas parcialmente corroborada pelos dados. De fato, há um aumento no número de judeus que se mudam para Israel vindos de países ocidentais, mas os números absolutos sempre foram pequenos e continuam sendo. Mesmo no auge da guerra, quando os israelenses buscavam abrigo contra os mísseis balísticos iranianos, os imigrantes da Rússia, atraídos pelo padrão de vida mais elevado de Israel, representavam uma fonte muito mais significativa de aliá do que os judeus americanos motivados pelo sionismo ou pelo antissemitismo.
Se na década de 1950 Israel era um país de imigrantes, hoje é um país em que a maioria dos cidadãos nasceu lá.
A fertilidade, e não a migração, é o que impulsiona a demografia do país atualmente. Seu futuro é determinado principalmente pelas pessoas que já vivem lá.
Como acontece com frequência, ambas as narrativas persistem porque confirmam as pressuposições daqueles que as adotam, de maneiras que não são particularmente surpreendentes. Para grande parte dos israelenses, o longo mandato de Benjamin Netanyahu, e especialmente o governo que ele formou em 2022, foi desastroso para o país, levando a uma tentativa mal concebida de mudar a ordem constitucional de Israel, aos ataques de 7 de outubro e a um completo mau gerenciamento da crise subsequente. O fato da má liderança estar fazendo com que os melhores e mais brilhantes deixem o país confirma tudo isso — e a existência de versões da vida real de Doron parece comprovar esse ponto.
Enquanto os israelenses de esquerda estão angustiados com a conduta de seus líderes eleitos, os sionistas da diáspora estão angustiados com o inegável aumento do antissemitismo. O fato de as pessoas estarem fazendo aliá confirma seu senso de urgência. Mais importante, talvez, é que isso confirma um quadro mais amplo de um Israel que, apesar de tudo, está florescendo. Isso também pode criar uma narrativa útil para certas instituições judaicas. E, assim como os proponentes da Narrativa do Abandono, os proponentes da Narrativa do Antissemitismo podem apontar exemplos concretos de pessoas que vão para Israel exatamente pelos motivos que citam.
No entanto, por mais reais que esses exemplos sejam, nenhuma das narrativas aponta para as tendências que realmente moldam a demografia israelense. Na verdade, ambas parecem não levar em conta o que realmente mudou em Israel desde seus primeiros anos. Se na década de 1950 Israel era um país de imigrantes, hoje é um país em que a maioria dos cidadãos nasceu lá ou se mudou para lá há muito tempo, sendo a imigração atual apenas uma modesta fonte de crescimento populacional. A fertilidade, e não a migração, é o que impulsiona a demografia do país atualmente. Embora a aliá e o antissemitismo provavelmente moldem algumas comunidades da Dispersão nos próximos anos, num futuro próximo, a grande maioria dos judeus viverá nos EUA ou em Israel. O Israel de hoje é resultado de várias grandes ondas de aliá entre os anos 1800 e o colapso da União Soviética; mas seu futuro é determinado principalmente pelas pessoas que já vivem lá.
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Rafi DeMogge é o pseudônimo de um autor e pesquisador radicado em Israel que escreve sobre demografia política. Você pode segui-lo no Twitter em @HeTows.




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